(*) Erivelton Braz
A matriz São José Operário, símbolo de Monlevade, precisa de ajuda imediata para não ruir física e simbolicamente. A situação é grave e exige zelo urgente com um dos mais importantes patrimônios da cidade. O templo é um marco fundacional do município, um símbolo da identidade coletiva e um pilar da nossa memória social, cultural e espiritual.
Tombada como patrimônio histórico municipal desde 2018, a igreja não recebeu esse reconhecimento apenas por sua arquitetura singular, considerada o único templo do mundo em formato de “V”, mas, sobretudo, pelo valor histórico e afetivo que carrega. E é preciso dizer com todas as letras: a lei de tombamento existe para proteger o bem, não para condená-lo à paralisia ou ao abandono e, muito menos, para dificultar ações com burocracia.
Tombar não é congelar no tempo; é garantir que qualquer intervenção seja feita com responsabilidade técnica, respeito à história e manutenção de características originais. Ou seja, a legislação não impede a restauração, ao contrário, ela a orienta e a legitima.
Estive no local nesta semana, ao lado do repórter João Vitor Simão, e o que vimos é, no mínimo, alarmante: rachaduras profundas, piso cedendo, infiltrações severas, danos em painéis de arte sacra, risco estrutural na escadaria externa e, talvez o mais preocupante, uma rede elétrica antiga, com revestimento de pano, que coloca a igreja sob risco iminente de incêndio.
É verdade que existem mecanismos importantes para viabilizar a restauração do bem, como leis de incentivo e fundos de Cultura, além de parcerias institucionais. No entanto, projetos desse porte demandam tempo, elaboração técnica, aprovação, captação de recursos. O problema é que o tempo da burocracia não dialoga com o tempo da deterioração. Patrimônios não se reconstroem com facilidade depois que se perdem. E incêndios, quando acontecem, não pedem licença nem aguardam trâmites legais.
Nesse contexto, a fala dura do presidente da Câmara Municipal, Fernando Linhares (Podemos), ao denunciar a gravidade da situação e criticar a postura da Secretaria de Obras, não pode ser ignorada. Assim como os apelos reiterados do padre Jefferson Veronês. Fato é que não se pode esperar uma tragédia para agir.
É justo registrar que o prefeito Laércio Ribeiro (PT) demonstrou sensibilidade ao tema. Em reunião com os vereadores, afirmou que é preciso agir e que dará ordem direta para que medidas sejam tomadas. Anunciou, ainda, a intenção de se reunir com a Diocese de Itabira–Coronel Fabriciano, para que ações sejam construídas de forma conjunta. A Câmara Municipal também se colocou como parceira, inclusive, com a possibilidade de adiantar a devolução de recursos financeiros para viabilizar parte das obras. Esse é um caminho correto, responsável e necessário.
Salvar a matriz São José Operário é um dever coletivo, de todos nós, monlevadenses. Por isso, proponho publicamente a criação de uma ampla campanha de arrecadação de recursos, envolvendo fiéis, comunidade, empresários, entidades e cidadãos que reconhecem o valor simbólico do templo. Com esses recursos iniciais, seria possível, ao menos, realizar a sondagem do subsolo da igreja para avaliar o nível do dano e elaborar um orçamento técnico e providenciar a substituição completa da parte elétrica.
Esse gesto não substitui o poder público nem a Diocese, mas sinaliza compromisso social, pertencimento e respeito à história. Preservar a São José Operário é preservar a alma de João Monlevade. E isso, definitivamente, não pode mais ser adiado.
(*) Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação

