(*) Marcos Martino

Querido Deus,

Mesmo lendo tanto, mesmo ouvindo tantos mestres, tantos pastores, tantos louvores. Mesmo lendo história, filosofia. Mesmo ouvindo ateus, criacionistas, cosmovisionários e os antiprofetas do Big Bang. Mesmo indo a templos e igrejas. Mesmo vendo as ondas do mar batendo na praia. Mesmo vendo as nuvens virarem água na serra. Mesmo convivendo com católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas. Mesmo sabendo que os israelitas te veem de uma forma, que os muçulmanos também, assim como os budistas, como os indianos que veneram milhares de deuses, como os que veneram o sol, a lua e Oxalá.

Nasci no Brasil, pátria colonial. Somos cristãos porque os portugueses colonizadores eram cristãos. Cresci com uma imagem sua: um avatar velho e barbudo, severo e radical. Quando li o Primeiro Testamento, reforcei essa imagem. Mas depois nos apresentaram Jesus: um jovem de 33 anos, barbudo e cabeludo, parecendo cantor de rock. Solidário, gostava de dividir o pão e os peixes, dizia para amarmo-nos uns aos outros. Muito mais humano. Compadecia-se da dor alheia, chamava todos de irmãos, criticava os vendilhões do templo, liderava pelas palavras e pelos atos, não ostentava milagres, foi solidário com prostitutas, ladrões e leprosos. Falava em igualdade, fraternidade, justiça social. E tudo junto e misturado na Santíssima Trindade.

Por isso, nunca fui um “temente”. Já tentaram me explicar o significado dessa palavra, mas ela me soa mais como uma derivação do temor à autoridade, uma espécie de usura psicológica. Deus, eu não sei qual é a sua forma. Abandonei os velhos avatares. Luz? Talvez. Velho barbudo não dá mais. Cara de Morgan Freeman ou de Jim Carrey também não. Pode até ter caras diferentes, formas diferentes — afinal, você inventou esse negócio de multitarefas. É muro de lamentações, psicólogo 24 horas on-line. Também é filósofo: provoca com parábolas e enigmas. É mantenedor: garante o pão de cada dia. É energia, é a saúde de que precisamos para trabalhar. É, principalmente, oráculo e conselheiro. Não começo a escrever sem lhe pedir guia para as palavras, para que sejam boas sementes. Saúde tem sido uma bênção, e só posso agradecer. E peço proteção para as próximas aventuras.

Mais que conhecimento, busco o discernimento de Salomão. Priorizar não é fácil num mundo tão fragmentado e cheio de estímulos. Mais do que nunca, o conhecimento hoje corre o risco de ser tóxico, encharcado de ideologia. Havia a máxima de que conhecimento é poder. Mas e se for um conhecimento introjetado, daninho, instalado em nossos cérebros pela educação, pela publicidade, pelo rádio e pela TV? Dizem que conhecimento é poder, mas nem sempre conhecimento traz felicidade.

Podemos pedir ajuda à IA para filtrar conhecimentos. A IA dribla algoritmos. É a travessia do momento. Por falar em IA: será que ela acredita em você? Será que a IA vai se conectar com você? Acaba uma travessia e já começa outra. Bom viver é assim: com altos e baixos, frio e calor, felicidade e tropeços. Os sacrifícios mantêm fortes os músculos do espírito.
Às vezes, me sinto como uma bomba ambulante, prestes a explodir a qualquer instante. Mas apago todas as luzes para ver os vaga-lumes, ouvir os sapos e os grilos. Abstraio-me e me conecto com a sua essência.

Felicidade o tempo todo é um saco. Repito a máxima socrática: sei que nada sei. Cheguei à conclusão de que as galinhas são inteligentes e têm o que nos ensinar. Coincidências miraculosas acontecem todos os dias. Meu amigo Deus, se possível, peço saúde e sanidade. O resto… a gente dá um jeito. Feliz Natal, feliz 2026!

 

(*)Marcos Martino é alvinopolense, ativista cultural e compositor