O voto do vereador Sidney Bernabé (PL) contra a ampliação das cotas raciais em concursos públicos e processos seletivos em João Monlevade continua a repercutir. A presidente da Associação Monlevadense de Afrodescendentes (Amad) e presidente do Conselho Municipal de Políticas de Promoção de Igualdade Racial (Compir), Alexsandra Mara Felipe Fernandes, utilizou a tribuna popular para falar do Dia da Consciência Negra.
Ao usar a tribuna popular da Câmara Municipal na quarta-feira (19), ela criticou duramente o voto de Dr. Sidney, na última semana. Sidney, que é negro, foi o único a se opor à proposta. O discurso aconteceu na véspera do feriado da Consciência Negra.
Alexsandra citou a assinatura da Lei de Cotas pelo prefeito Laércio Ribeiro (PT), e agradeceu nominalmente a cada um dos vereadores que votaram a favor do projeto e ao presidente da Casa, Fernando Linhares (Podemos). Conforme o regimento interno, o presidente não vota. No entanto, Linhares já havia manifestado total apoio à iniciativa.
Sem citar o nome, a presidente da Amad demonstrou profundo descontentamento com o voto de Dr. Sidney. “Não é só indignação, é revolta mesmo. Porque ver um homem preto sentado numa cadeira de poder que ele ocupa, graças ao suor e à luta e ao sangue do povo preto, votar contra uma lei de cotas, isso para nós é uma traição política, uma traição histórica, e precisa ser nomeado como tal”.
Fernandes afirmou que sua contrariedade pelo voto de Bernabé não se tratava de uma mera divergência do legislador, pois ele atacava a possibilidade de jovens negros ingressarem no serviço público e ascenderem socialmente. Ela ainda questionou a posição do vereador pelo fato de ele ser negro. “Votar contra cotas é votar a favor da manutenção do racismo. É votar com a branquitude que sempre lucrou com a nossa ausência. E dói, dói muito. Dói ver alguém da nossa cor, alguém que sabe o que é disputar o básico, reproduzir discurso de quem nunca precisou provar nada”. Ela prosseguiu: “Por isso eu digo: representatividade vazia não serve. Ter pele preta não significa compromisso com o povo preto. E quando o vereador preto se levanta para votar como se fosse porta-voz da elite branca, ele não representa o nosso povo. Ele representa o projeto de quem sempre quis nos manter de fora”.
A presidente da Amad ainda defendeu a ação afirmativa como um mecanismo de justiça, e não de privilégio. “Cota não é privilégio. Cotas são ferramentas de sobrevivência, mecanismos de justiça, chance de vida real. Ela abre portas, mas quem atravessa é quem estudou. Ela reduz a distância, mas não carrega ninguém nas costas. Ela equilibra as oportunidades, mas não entrega diploma. E qualquer um que vote contra isso está votando contra nós. Contra a memória dos nossos. Contra as possibilidades de justiça social nesse país. Cotas não são atalho. Cotas não colocam ninguém dentro da universidade sem mérito. O que nos fazem é corrigir uma desigualdade histórica que sempre colocou pessoas pretas, pobres e periféricas na largada mais difícil”, afirmou.
Sidney conta origem, reafirma posição
e diz “que estudou mais”
Sidney Bernabé usou a tribuna posteriormente, e respondeu ao discurso de Alexsandra Fernandes. Ele citou sua origem familiar, de pais negros da classe trabalhadora, e sua trajetória escolar em colégios públicos. O parlamentar, que é médico de profissão, explicou que a miscigenação fez misturar as características do povo brasileiro, criando uma ampla gama de gradações raciais. Ele ainda defendeu que a reserva de vagas seja concedida por critérios sociais e financeiros: “Para mim só é importante a condição socioeconômica, financeira, para as pessoas terem direito a uma cota. Branco que é pobre também tem direito à cota na universidade”.
O vereador aproveitou para contrapor a presidente da Amad, e voltou a defender a dedicação e o mérito pessoal como meio de superar as adversidades. “Quer saber o segredo do sucesso? Estude mais, acorde mais cedo, trabalhe mais”, disse. Em outro momento, ele reforçou que estudou mais. “E a pessoa que veio aqui, ela precisa estudar mais, porque mais do que ela, com certeza, eu estudei. Estudei muito mais para alcançar às vezes o que as outras pessoas não alcançaram. Mas eu fiz aqui com sacrifício meu, da minha família, estudando, estudando, estudando, é que a gente vai alcançar algo melhor. É só nisso que eu acredito”, declarou. Sidney Bernabé ainda defendeu o direito de casa parlamentar votar livremente, conforme sua consciência, e de ser respeitado por isso.
“Isso não me ofende”
O parlamentar disse não se sentir atingido pelas palavras da presidente da Amad, e afirmou estar preparado para as críticas. “Quer saber o segredo do sucesso? Estude mais, acorde mais cedo, trabalhe mais. Isso não me ofende de forma nenhuma. Eu sou o cirurgião responsável. Falei isso com alguns colegas do pronto-socorro do hospital. Então, quando eu tenho que dar notícia cara a cara para uma família ‘seu filho morreu, foi acidente, nós fizemos o melhor’, eu sinto pressão. Agora, essa casa me pressionar, alguém aqui me pressionar, não acontece nada comigo, não. Eu já sou cascudo, já apanhei demais, e só me fortaleceu. Então eu não sinto essa pressão. Estou aqui para representar os negros, estou aqui para representar a minha família, mas eu voto com a minha consciência e eu acho que 30% é uma cota muito grande”, afirmou.

