(*) Mário Ananias
Adoniran Barbosa, nascido João Rubinato, em Valinhos–SP, teve como título de uma de suas icônicas músicas a expressão: “Fica mais um pouco, amor”. A também saudosa Beth Carvalho, eterna madrinha, interpretou, de Argemiro Patrocínio e Casquinha, o grande sucesso: “A chuva cai” que, em certos trechos, suplica: “Espere um pouco. Não vá agora. Você ficando, vai fazer feliz um coração”. São situações em que há a convicção de volta, do bem-querer. Talvez se busque somente reduzir o lapso entre a constante presença e eventuais ausências. Que bom que fossem sempre dessa forma as despedidas!
Atualmente, há uma justa preocupação, tanto da área médica quanto das autoridades de saúde, quanto aos riscos da depressão patológica que, em muitos casos, podem levar o paciente a atentar contra a própria vida. Para além dos cuidados, dos tratamentos que visem à redução de danos, estabeleceu-se a necessidade de combater as causas. Entre os diversos agentes identificados, citam-se solidão, abandono, desilusão amorosa (TDM), estresse por trauma (Distimia) ou por ambientes insalubres, apatia e falta de perspectivas sociais ou profissionais (Burnout).
No entanto, há uma condição que vem sendo especialmente analisada, por representar um segmento da população em que a consecução ou tentativa de autoextermínio apresenta níveis alarmantes. Entre as Pessoas com Deficiência, esses números são quatro vezes maiores do que a média da população.
Todavia, a proporção pode ainda ser maior, considerando que algumas deficiências são impeditivas para que o paciente consiga sequer atentar, ou, sendo possível ter êxito na tentativa, alcançar o resultado ansiado. Importa observar ainda que esse segmento social apresenta um percentual de depressão próximo ao triplo do geral e ainda enfrenta a dificuldade de se expressar sem que pareça simples consequência de sua condição PcD.
É de se notar ainda que, entre os diversos níveis sociais, há um aumento de incidência na classe média baixa, na faixa entre adolescentes (15) e jovens adultos (29), determinado pela sensação de impotência ante as adversidades e de incapacidade para alterar a própria trajetória.
As novas tecnologias permitiram o contato virtual com pessoas fisicamente distantes, mas também estimulou a acomodação para esse modelo entre pessoas muito próximas. Isso ampliou significativamente a impessoalidade e o distanciamento social entre as pessoas. Até mesmo emoções passaram a ter um padrão estranho: emojis.
Trabalhos científicos, de acesso restrito, dão conta que temos uma região, em nossa Capital Federal, que alcança índices absolutamente alarmantes. Não se trata de área de carentes: é, em verdade, um “bairro” classe média, mas que apresenta excessivos casos desta natureza. Coincidentemente, a grande maioria dos episódios ocorre com pessoas solitárias, com dificuldades de entrosamento e que atuam no serviço público apenas pela segurança financeira, não por aptidão ou interesse.
Tudo isso traz à memória um sucesso musical de um ex-servidor público, o grande Vinícius de Moraes em parceira com o ótimo Toquinho: “Um homem chamado Alfredo”, que mostra essa realidade: “O meu vizinho do lado se matou de solidão…”. Talvez, parte da solução seja mais abraços e menos mensagens virtuais requentadas.
(*) Mário Ananias é monlevadense, servidor público, escritor, palestrante e autor do livro:
Sobre Viver com Pólio.
Contato: mariosrananias.com.br/

