(*) Karen Sartori
A relação entre o homem e o cavalo é milenar, sendo um dos animais mais essenciais na história da humanidade. A sua domesticação, desde os primórdios, antes de Cristo, mudou a forma como os povos viviam, guerreavam, produziam e se conectavam. Na mitologia e nas artes, o cavalo é símbolo de força, liberdade e beleza.
Na cidade de Bananal, interior de São Paulo, a atrocidade cometida contra um cavalo, que ao buscar descanso, em vez de água e sombra, recebeu golpes de facão que deceparam as suas quatros patas, não apenas chocou a população. Mas também reacendeu a discussão sobre punição mais rígida para quem comete crimes contra animais. Além disso, nos força a refletir sobre a inversão de valores, onde o homem ocupa o lugar do sujeito irracional e selvagem em pleno século XXI.
As redes sociais, palco para manifestações, é também termômetro para a indignação daqueles que estão cansados de assistir a violência contra os animais ocorrendo em escala cada dia maior. E são elas o maior trunfo de nós protetores. Ela não apenas nos permite lugar de fala, como entre as vozes que reproduz, estão as de grandes representantes populares, com milhões de seguidores que nos ajudam a cobrar justiça e leis mais severas.
Que avançamos, não resta dúvida. A questão é que o ritmo da violência não condiz com o da punição. Em 2020, a Lei de Crimes ambientais, nº9.605/1998, foi alterada pela Lei nº 14.064 aumentando a punição apenas contra cães e gatos, que pode chegar a cinco anos de prisão. Fortemente ligados ao setor agropecuário, animais de grande porte não foram incluídos. Talvez, por saberem que não passaria pela bancada ruralista, eis aqui uma especulação reflexiva.
Ao falar em maus tratos contra os animais é preciso citar ainda a Teoria do Elo (The link Theory), que ganhou força nos anos 90 nos Estados Unidos. O raciocínio é: a violência contra animais é um “elo” dentro de uma cadeia de comportamentos violentos especialmente, contra mulheres, crianças e idosos que carregam o mesmo estigma da fragilidade. No Brasil, a Teoria vem sendo usada em debates jurídicos e campanhas de conscientização.
Compreender que os animais compartilham conosco o direito a existência e por consequência ao respeito e ao bem-estar é um ponto essencial para que não fechemos os olhos ao que ocorre ao nosso redor. Grande parte dos casos de maus-tratos decorre da negligência e da falta de conscientização e cabe à sociedade assumir essa responsabilidade de forma coletiva.
Existem situações em que é imprescindível que a polícia seja acionada. Como crime, é natural que quem acionou testemunhe dando fundamento e/ou forneça provas para que assim possa cobrar o cumprimento da lei, se negar a registrar uma ocorrência nesta situação configura por parte da autoridade policial prevaricação.
Não adianta cobrar soluções ou terceirizar todas as denúncias para Ong’s. Geralmente, essas entidades contam com um grupo enxuto, sempre voluntário, por não querer “se indispor” com um vizinho ou familiar que mantem um animal preso 24h, sem alimentação, água ou abrigo adequado. Possuímos capacidade cognitiva e emocional que nos permite abordagens educativas sobre o bem-estar. E esses são passos fundamentais para transformar a realidade em que vivemos, para buscar por um futuro mais compassivo e justo.
(*) Karen Sartori é presidente da Associação Cãopanhia do Bem

