(*) Márcio Passos

A maior herança que meu pai me deixou foi o gosto pela leitura, somado aos inegociáveis exemplos de honradez e firmeza de caráter. Patrimônio que valor material nenhum supera — e nunca me fez falta. O que ele deixou como história de vida me fez um homem feliz, que procura, a cada dia, ser melhor.
Ele era um maluco beleza, como tento ser. Bebeu muito até os quarenta e poucos anos, mas depois criou o Alcoólicos Anônimos em João Monlevade e em toda a região do Médio Piracicaba. É lembrado com saudade pelos amigos ex-bebedores que reconstruíram suas vidas com o apoio dos voluntários que chegaram antes no AA.
Muito antes disso — em um tempo em que eu ainda não existia — ele e seu amigo e advogado José Silva criaram, com outro parceiro, um trio profissional de velório. Trocavam “teatro de despedida” por bebida e tira-gosto de graça. Pagavam um moleque de rua para descobrir os velórios, nomes e informações sobre os mortos. Era um sucesso. Discurso com emoção, lágrimas descendo, família comovida com os elogios ao defunto e… a danada da cachaça.

Quando mudou para João Monlevade me deu a oportunidade de, aos oito anos de idade, participar de minha primeira campanha eleitoral. Descia o piso de terra da Getúlio Vargas, colando cartazes nos postes e distribuindo vassourinhas “de ouro” para as pessoas. Jânio foi eleito, mas nunca gostei dele.
Décadas depois, já aposentado da Usina de Monlevade e com a idade avançada, começou a deixar de lado a vida de ateu. O Deus que não existia apareceu, timidamente, sem muito envolvimento. Graças a Ele — ou a ela, sua esposa religiosa — passou a repetir palavras de fé até que ela faleceu, deixando-o viúvo. Então, passou a ler a Bíblia, cantar as músicas que ela cantava e, por fim, foi algumas vezes à igreja.
Diabético, a saúde começou a se esvair aos oitenta anos, exigindo mais atenção dos filhos. Viveu mais quatro anos em altos e baixos, no início reafirmando o pavor da morte e, ao final, compreendendo a natureza de sua chegada e a inutilidade da resistência.
Poucos dias antes de morrer, já gemendo e reclamando muito, perguntei a ele se não estaria exagerando. A resposta veio firme, lenta, com a serenidade de quem sabe do que fala. Foi definitiva — e nunca mais esqueci:

— Cada um sabe o tamanho da sua dor.
Esta frase nunca mais saiu de minha cabeça. Foi a última lição de vida que nos deixou e reafirmou o compromisso com o respeito às diferenças. Certamente todos nós sentimos a dor de uma maneira, intensidade diferente e que deixa marcas mais leves ou pesadas de acordo com a vida e a história de cada um.
Ele passou a vida inteira temendo a morte e percebeu, sem lamentar, que ela estava chegando. E o levou com sua dor, cujo tamanho só ele soube.

(*) Márcio Passos é jornalista e fundador do A Notícia