O vereador Revetrie Teixeira (MDB) usou a tribuna da Câmara Municipal de João Monlevade para denunciar supostos episódios de racismo em uma escola pública da cidade. Segundo ele, desenhos expostos para a Semana da Consciência Negra na Escola Municipal Eugênia Scharlé, no bairro Vila Tanque, teriam o cabelo feito de palha de aço.
O vereador classificou a situação como “racismo institucional”, e afirmou que a prática já acontece desde 2023. Ele também citou o fato de uma funcionária, ao ser transferida da referida escola, dizer haver recebido a “carta de alforria”, referência à libertação concedida de um escravo no Brasil: “É muito triste quando a gente ouve isso”, afirmou.

Ainda em tom crítico, Revetrie Teixeira afirmou que o prefeito de João Monlevade, Laércio Ribeiro (PT), tem conhecimento sobre as denúncias, mas não tomou providências. O parlamentar pediu as atas das reuniões que trataram sobre o caso, e acusou uma “lei da mordaça” para que esse e outro episódio de teor semelhante não tornassem públicos: “Os funcionários têm medo”, referindo-se ao temor de transferência ou demissão. Ainda segundo o vereador, sem citar nome, o responsável e quem acobertou o ato recebeu uma gratificação.
O parlamentar ainda pediu que se registrasse em ata o seu repúdio à forma como a Secretaria de Educação conduziu o processo. Ele criticou o fato de que a discriminação ocorreu num governo do Partido dos Trabalhadores, que tem a igualdade racial como uma de suas bandeiras.

“Situação grave”, pontua líder do governo

A vereadora Maria do Sagrado (PT), líder do governo no Legislativo, considerou a situação como “grave”, e afirmou que o caso precisa ser apurado: “o mínimo a se fazer é um processo administrativo”. No entanto, ela afastou análises partidárias do episódio: “Isso é uma coisa de humanidade”.

A presidente da Associação Monlevadense de Afrodescendentes (Amad), Alexsandra Mara Felipe Fernandes, relatou outro episódio de violência racial. Segundo ela, uma das funcionárias da escola teria ouvido que “preto serve para limpar o chão”. Alexsandra relata que a Amad e o Conselho Municipal de Igualdade Racial (Compir) tentaram intervir, mas foram tolhidos por integrantes da Secretaria de Educação e do governo municipal. Ela ainda afirmou que, no início do ano, a maioria dos membros do Compir foi removida de suas posições, restando apenas dois integrantes.

Prefeitura afirma que instaurou sindicância

O A Notícia procurou a Prefeitura de João Monlevade para saber quais providências seriam tomadas. Em resposta, a administração municipal afirmou que a Secretaria de Educação teve conhecimento das denúncias envolvendo a Escola Municipal Eugênia Scharlé e abriu sindicância administrativa sobre o caso. “Diante dos fatos narrados e da necessidade de assegurar uma apuração rigorosa, responsável e isenta, a Prefeitura instaurou sindicância administrativa para averiguar todas as alegações. A sindicância está sendo conduzida conforme os princípios do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório, e tem como objetivo verificar com profundidade os acontecimentos relatados, ouvir as partes envolvidas e, se constatadas irregularidades, aplicar as medidas cabíveis dentro do ordenamento jurídico”.

No entanto, o Executivo negou que o prefeito Laércio Ribeiro tivesse conhecimento sobre os fatos e se omitido. “Assim que os fatos chegaram ao conhecimento da gestão, por meio de canais formais, a apuração foi imediatamente determinada, dentro dos trâmites legais”, informou a administração em nota enviada ao A Notícia.