(*)Erivelton Braz
A política, como o futebol, raramente se aposenta de verdade. Basta uma brecha no campo para que veteranos voltem a calçar as chuteiras e entrar no gramado outra vez. É o que acontece agora com o experiente Mauri Torres, figura de peso da história política da região e do estado de Minas Gerais. Ele se prepara para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa em 2026, retomando o lugar que deixou em 2011, para assumir uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Pai do deputado Tito Torres (PSD), que não deve buscar a reeleição, Mauri, aos 74 anos, volta ao jogo no mesmo campo em que construiu seis mandatos consecutivos, presidiu a Assembleia de forma consecutiva e até governou o estado interinamente. Mauri é respeitado por várias frentes políticas. Tanto, que tem no seu currículo o título de jamais brigar com quem quer que seja. Acima de tudo, é um conciliador nato. Essas suas qualidades o acompanham por toda a vida e estão, hoje, cada vez mais raras num ambiente político polarizado e até violento. Após deixar o TCE, é chamado nos bastidores de “o 78º deputado” da Casa, pelo papel ativo que vem desempenhando nas articulações e no relacionamento com prefeitos e aliados.
O movimento de Mauri propõe múltiplas leituras. De um lado, há a força de quem carrega um capital político robusto, capaz de reorganizar forças na região e de oferecer representação consistente para os municípios. Inclusive, sendo o catalizador do Médio Piracicaba, tal qual quando começou na política em 1990. Mauri é interlocutor nato, com trânsito nas mais diferentes instâncias de poder.
Por outro lado, é impossível ignorar a mensagem subliminar na volta de Mauri a uma disputa eleitoral: a repetição de nomes tradicionais, a manutenção de um ciclo familiar e a falta de renovação no cenário político. Tito Torres substituiu o pai em 2014. Agora, de olho no TCE (onde o pai atuou até se aposentar), Tito deixa o espaço na Assembleia para que Mauri reassuma o lugar do filho. Essa permanência das mesmas lideranças expõe também a dificuldade de renovação política na região. Afinal, quem enfrentaria em Monlevade e demais cidades, um candidato com tamanho histórico eleitoral e rede de apoios?
Mesmo assim, Mauri também terá desafios próprios de um novo tempo. Parte do eleitorado mais jovem pouco conhece seu legado. Para conquistar essa faixa, será preciso traduzir sua experiência em linguagem contemporânea, entendendo e utilizando as redes sociais. Não como obrigação de campanha, mas como ferramenta de diálogo real. No jogo político atual, quem não se conecta com os usuários, corre o risco de desaparecer no debate.
Sua volta, portanto, é um misto de oportunidade e reflexão. Oportunidade, porque traz para a disputa alguém com habilidade política comprovada, capacidade de articulação e respeito entre aliados e até adversários. Reflexão, no entanto, porque escancara a ausência de novas lideranças regionais dispostas ou capazes de ocupar esse espaço.
Em um cenário de fragmentação política e incerteza econômica, Mauri Torres entra na corrida com vantagem de quem já conhece o caminho das pedras da política. Mas, como todo veterano que volta ao campo, terá de mostrar que ainda consegue jogar no ritmo e com as regras da partida na atualidade. Falta um ano para a disputa começar.
(*) Erivelton Braz editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação

