(*) Erivelton Braz
Nos últimos vinte anos, a política brasileira tornou-se um jogo cada vez mais lotado. Para se ter ideia, enquanto em 2002 havia pouco menos de cinco mil candidaturas a deputado federal, em 2022 esse número mais que dobrou, passando de 10 mil postulantes às 513 cadeiras disponíveis na Câmara dos Deputados.
Em média, mais de 20 candidatos por vaga. Para deputado estadual, o cenário é semelhante: a cada eleição, mais nomes, menos espaço. Diante dessa superlotação da disputa eleitoral, é ainda mais preocupante constatar que o Médio Piracicaba, com seus quase 500 mil habitantes, segue órfão de uma representação genuína em Brasília. Na Assembleia de Minas, apenas o monlevadense Tito Torres (PSD) é representante da nossa região.
Não se trata apenas da ausência de um deputado federal ou de mais estaduais “nascidos aqui”. O problema é mais profundo. Há anos falo a respeito e reafirmo: falta à região alguém que compreenda de fato seus dilemas, seus desafios e, principalmente, sua identidade.
Há mais de duas décadas, a cadeira que poderia ser ocupada por um filho ou filha da terra tem sido entregue a outros “forasteiros políticos”. Esses acabam apadrinhados por lideranças locais que enxergam nas eleições um balcão de trocas: eu te dou voto agora, você me ajuda com verbas e apoio nas eleições municipais depois.
Esse ciclo vicioso enfraquece a região do Médio Piracicaba. Vereadores, secretários municipais e lideranças comunitárias, dentre outros, que deveriam ser guardiões dos interesses locais, acabam se tornando “cabos eleitorais de luxo” para políticos que pouco (ou nada) conhecem sobre as reais necessidades do nosso povo, de nossas cidades. Esses candidatos “de aluguel” não têm qualquer compromisso com a região após as eleições. Eventualmente, enviam um ou outro recurso, vá lá. Mas não levantam bandeiras, pautas ou engrossam discursos, pró Médio Piracicaba, por exemplo. O mandato serve a outras bases, outros compromissos, outros interesses e o apoio efetivo acaba pulverizado.
E a tendência é piorar. Com o festival de emendas parlamentares, que já alcançam os R$52 bilhões no orçamento da União, os deputados que já estão no poder conseguem consolidar seus domínios. Eles turbinam seus redutos e se fortalecem nas urnas. Esse sistema, por sua vez, sufoca os novatos e torna quase impossível a ascensão de nomes novos, especialmente, os sem padrinhos políticos ou sem capital financeiro robusto.
Para o Médio Piracicaba, o prejuízo é direto. Seja na ausência de vozes, nas discussões que importam, ou até no acesso a mais recursos, passando pela falta de articulação política regional. E não é por ausência de potenciais candidatos. A região tem lideranças capazes, competentes, com trajetória limpa e conexão com o povo. Falta-nos, no entanto, unidade. Falta-nos visão de coletivo. Falta-nos estratégia. É preciso romper essa lógica. E o caminho começa agora, na pré-campanha.
Os eleitores da região precisam olhar com mais atenção para os nomes que realmente representam o Médio Piracicaba. Mais do que promessas ou verbas pontuais, o que importa é o compromisso de longo prazo, a vivência local, a história compartilhada. Não podemos continuar elegendo quem só pisa aqui de dois em dois anos.
O jogo político está mais complexo, é verdade. Mas o eleitor também está mais atento, mais informado. A internet, as redes sociais e o acesso à informação podem e devem ser aliados nesse processo.
A sorte está lançada, pois as campanhas começam daqui a um ano. E a responsabilidade é coletiva. Está na hora de o Médio Piracicaba voltar a ocupar seu espaço no cenário político estadual e federal. Se não agora, até quando esperar?
(*) Erivelton Braz é escritor, jornalista, professor e editor do A Notícia

