(*)Fabiana Menezes

O universo brasileiro das famílias com idosos longevos tem, hoje, uma constelação de cuidadoras (sim, e na sua maioria esmagadora de mulheres). E elas serão a cada dia mais demandadas porque estamos vivendo mais. O que acontece quando essas mulheres, com jornada tripla, clamam por ajuda? Como amparar e reconhecer os primeiros sinais de que algo não vai bem? Como as nossas instituições públicas são ou não estão preparadas para os desafios da saúde mental? Como assegurar os direitos dos idosos quando a imagem de juventude eterna é cultuada e pessoas são vistas como objetos descartáveis?

Vamos contar a história real de *Verônica (nome alterado), para aqueles que se dizem cristãos e gente de bem, a alusão bíblica deixa o seu recado. Inicialmente, buscou ajuda em uma clínica privada, onde o estado de surto foi entendido como “ofensa”. Ao invés do encaminhamento ao serviço de emergência, ou um protocolo de medicação intravenosa, o resultado foi uma pessoa em surto pelas ruas de Monlevade.

A desaparecida foi encontrada na delegacia onde o rastro do sofrimento mental a deixaria detida, por 12 horas, sem que, novamente, a medicina fosse acionada. Mas curiosamente, um laudo foi requerido de uma pessoa em surto, desconsiderada pela primeira porta de entrada. Será que voltamos ao tempo não muito distante em que o adoecimento mental era coisa do diabo? Será que a leitura da já clássica obra de jornalismo investigativo “Holocausto Brasileiro: Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil” deveria ser leitura obrigatória não só para gente da saúde, mas da administração da justiça, da polícia, do governo?

Mas a coisa iria piorar. Uma pessoa que passou 12 horas em privação de sono, aos gritos, não foi considerada evidência robusta de que havia alguma coisa errada. Sua detenção virou uma ordem de prisão e lá foi ela para o presídio em Timóteo. Sim, alguém em surto, no presídio. Zero de ponderação sobre o custo de deslocamento para o estado, menos um, de humanidade diante do risco à vida de Verônica*.

E aí lhes pergunto quem são os doidos dessa história? Não estamos preparados para a epidemia de adoecimento mental que não escolhe os seus doentes. Eles podem estar em qualquer lugar, classe social, faixa etária, podem estar aí, ao seu lado. Mas, dizem que Deus é brasileiro porque a história de Verônica* começou a mudar. Advogado, advogada, psicóloga, agente policial, família, amigas que não fogem da raia articularam uma rede de apoio. A viatura passou no Sesamo de Monlevade, onde médicas e psicólogas resistiram àquele tipo de abordagem policial.

Sob risco de prisão, essas bravas mulheres honraram o seu juramento profissional e tentaram impedir o caminho do presídio. Mantiveram o protocolo de aplicação da sedação com o tempo exigido. A passagem no Sesamo gerou o documento de atendimento no qual o seu sofrimento mental foi atestado. Uma decisão judicial, bem informada, justificou a escolha da liberdade mediante fiança. Seu alvará chegou no presídio de Timóteo, no início da noite, quando ela saiu, sozinha do presídio e foi acolhida, pela dona da barraquinha, em frente.

Enquanto isso, nenhuma ambulância disponível, a ajudar no seu deslocamento forçado, da sua cidade de origem. E aí houve uma jovem e destemida advogada que seguia pela BR-381 rezando para que não houvesse outro surto e nem outra ocorrência, naquela noite solitária e fria. Ela chegou bem e o Sesamo a acolheu. Verônica* já começou os seus sorrisos a empatia que fazem do seu cuidado, uma experiência alegre. A saúde mental afeta e pode atingir todas as pessoas. O Sesamo propiciou à Verônica* cuidados. A cordial cuidadora de idosos (que tem sua própria mãe para cuidar) recebeu na rede pública monlevadense, o devido amparo à saúde mental. Viva o SUS!

Segundo o IBGE, em 2017, o número de idosos já havia ultrapassado 30 milhões, com aumento de 18% em 5 anos. As cuidadoras são parte importante dessa estória tecida na intimidade das casas, no cotidiano de famílias. A Política Nacional de cuidados instituída pela Lei nº 15.069/24 reconhece o cuidado como bem público e, portanto, competência a ser compartilhada pela União, estados e municípios. Costurar a cooperação entre diversos órgãos públicos, não é só imperativo legal, é compromisso ético. Afinal a pergunta que grita, diante da demanda crescente por cuidado é: como cuidar de quem cuida?

(*)Fabiana Menezes é monlevadense, filha de Prof Vicente e Guiomar, professora doutora titular da Faculdade de Direito da UFMG. Coordena o grupo de pesquisa Observatório para qualidade da lei e o LegisLab.