“Oferecemos uma oportunidade para a pessoa mudar de vida. É um novo parto”. Com essas palavras, a presidente da Colônia Terapêutica Bom Samaritano, Marinete Nunes, define os caminhos para uma nova vida de quem quer recomeçar longe das drogas e do álcool.
No quadro do A Notícia, “Erivelton Braz Entrevista”, Marinete revela a filosofia do “tratamento pelo ouvido”, oferecendo uma segunda chance para quem quer ficar livre da dependência química. Ela fala também dos desafios e dos gargalos burocráticos para obter verbas, além das histórias de vidas transformadas pelo acolhimento voluntário, entre outros temas.

Há quase quatro décadas de trabalho voluntário, a Colônia Terapêutica atua no acolhimento e na reabilitação de dependentes químicos e alcoólatras. Ao longo desses anos, a Colônia Bom Samaritano é consolidada como uma das entidades terapêuticas mais importantes de João Monlevade e região.
“Tratamento pelo Ouvido”
Segundo Marinete, o processo de ingresso na Colônia Bom Samaritano é baseado no princípio da voluntariedade, conforme estabelecido pelas diretrizes legais das comunidades terapêuticas. “Para ser acolhido, o indivíduo precisa demonstrar vontade própria de se tratar, estar acompanhado por um familiar responsável, passar por uma triagem com a equipe de psicologia, assinar um termo de consentimento e apresentar atestado médico de aptidão”, explica.
A presidente faz questão de diferenciar o trabalho de uma comunidade terapêutica do modelo de clínicas hospitalares. Conforme Marinete, enquanto as clínicas focam na intervenção médica e na administração contínua de remédios, a comunidade terapêutica atua na mudança comportamental e emocional do indivíduo. “O método adotado é ‘dado pelo ouvido’, capacitando os acolhidos a identificarem seus defeitos de caráter e a aprenderem a dizer ‘não’ aos gatilhos do vício”, explica a presidente.
Estrutura
Atualmente, a estrutura operacional conta com 15 funcionários contratados via CLT, além de acompanhamento semanal por médico psiquiatra e clínico geral, psicóloga e responsável pelo controle de medicações. A diretoria, por sua vez, é composta exclusivamente por trabalhadores voluntários. Entre os colaboradores está Flávio Mansueto que hoje atua como coordenador voluntário. Ele tem uma história de superação da dependência, já foi acolhido pela instituição para tratamento há cerca de 15 anos. “Voltei para casa, para devolver a graça que recebi”, relata.
Atualmente, a colônia acolhe 46 homens na ala masculina e nove mulheres na ala feminina Santa Luísa de Marilac, onde o principal desafio, conforme Marinete, reside no acompanhamento emocional de mães que lidam com a saudade dos filhos durante o processo de recuperação.
Ameaças
Marinete reforça o alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que o álcool é a principal e mais grave das drogas, atuando como porta de entrada para outras substâncias. Além disso, a abstinência alcoólica em quadros graves é descrita como severa, com risco de óbito se não houver o suporte médico inicial adequado. “Por isso, falamos sempre: evite o primeiro gole”, afirma.
No entanto, além do álcool e de outros entorpecentes, a equipe da Colônia tem se capacitado para lidar com dependências emergentes entre os jovens. Destacam-se o uso de dispositivos eletrônicos de fumar, os vapes, associados a graves danos pulmonares e a ludopatia, caracterizada pela compulsão e pelo endividamento em jogos eletrônicos e apostas.
Desafios
Conforme o tesoureiro Genivaldo Lacerda, manter a colônia gera um custo médio mensal de R$3.000 a R$3.500 mensais por acolhido. A rotina diária envolve um alto consumo de insumos, incluindo o preparo de 250 pães por dia, feitos na própria casa de acolhimento, e o uso diário de mantimentos. Para complementar a renda, a comunidade aposta na autossustentabilidade, produzindo blocos de concreto, reaproveitando madeira para a confecção de paletes, entre outros serviços. No entanto, a maior receita vem de doações da comunidade.
Segundo a presidente da colônia, o maior obstáculo enfrentado no momento diz respeito a um projeto de combate a incêndio, item obrigatório exigido pelo Departamento de Entidades de Apoio e Acolhimento Atuantes em Álcool e Drogas do Governo Federal (Depad) para a regularização da entidade.
Conforme Marinete, a Colônia ainda não recebeu uma verba de R$100 mil, indicada pela Câmara Municipal em 2023, devido a indefinições jurídicas e burocráticas. Com isso, a entidade chegou a perder um projeto de adequações e teve que fazer outro. O segundo projeto foi doado por duas engenheiras voluntárias e já está aprovado pelo Corpo de Bombeiros. No entanto, a entidade ainda aguarda a liberação da verba. O impasse, segundo Marinete, caminha para a resolução após acordo com a Secretaria Municipal de Saúde.
Mãos que reconstroem
Na Colônia Bom Samaritano, todas as reformas são realizadas voluntariamente pelos próprios acolhidos. “Além de executarem tarefas da rotina diária, como lavar as próprias roupas, cozinhar, varrer a casa e higienizar os banheiros, os acolhidos realizam esses trabalhos de manutenção durante o período de laboterapia em suas horas de folga, sentindo grande satisfação ao deixar uma retribuição pelo auxílio que recebem da instituição”, reforça a presidente. As atividades são totalmente opcionais e jamais substituem ou atrapalham a participação nas reuniões essenciais do programa terapêutico.
Superação e Apoio
A trajetória da Colônia Bom Samaritano teve início em fins da década de 1980, com a iniciativa do Padre Afonso, sacerdote em recuperação do alcoolismo e de lideranças comunitárias, como o saudoso Pedro Víctor Luzia. Além dele, entre outros tantos voluntários, destaca-se Moisés dos Anjos. Prestes a completar 90 anos, Seu Moisés é reconhecido como o pilar da instituição, mantendo uma rotina diária de dedicação voluntária que se estende por mais de cinco décadas, afirma Marinete.
A eficácia do trabalho é demonstrada na trajetória de ex-acolhidos que se tornaram advogados, engenheiros e proprietários de negócios. Outro foco central é o restabelecimento dos laços familiares, rompidos pelo desgaste do vício. Para estimular a inserção profissional e combater o estigma social, a diretoria reforça a importância do cumprimento de um decreto municipal em João Monlevade que prevê benefícios fiscais e preferência em licitações para empresas que contratarem ex-acolhidos de comunidades terapêuticas.
A entidade convida a população a colaborar com o trabalho de acolhimento para manter em atividade. As doações financeiras de qualquer quantia podem ser efetuadas via Pix por meio da chave de e-mail [email protected].


