Uma manifestação organizada e realizada pelo Sindicato dos Metalúrgicos de João Monlevade (Sindmon-Metal) na manhã de ontem (21) ampliou a pressão sobre a ArcelorMittal em meio ao impasse nas negociações sobre o sistema de turno de revezamento. A ação antecede uma assembleia marcada para esta sexta-feira (22), quando, segundo o presidente do Sindicato, Flávio Cordeiro, os trabalhadores poderão deliberar sobre a decretação de estado de greve.

A principal reivindicação da categoria é a implantação da escala 4×4, modelo em que os trabalhadores cumprem jornadas de 12 horas por quatro dias consecutivos, seguidos de quatro dias de folga. Segundo o sindicato, o formato já é adotado em outras unidades da ArcelorMittal no país, mas ainda não foi implementado em João Monlevade.

De acordo com representantes sindicais, a mobilização de ontem foi planejada estrategicamente para medir o nível de adesão e apoio dos trabalhadores às ações que vêm sendo conduzidas pela entidade. “A mobilização serviu justamente para sentir a resposta dos trabalhadores, verificar se existe apoio para avançarmos em medidas mais intensas. A resposta definitiva será dada na assembleia”, afirmou o presidente do Sindicato.

O ato reuniu trabalhadores da usina e contou com apoio de diversas entidades sindicais da região, entre elas o Sindicato Metabase de Itabira e Região, o Sindicato Intermunicipal dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal de João Monlevade, Alvinópolis, Dom Silvério e Nova Era (Sintramon), o Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Timóteo e Coronel Fabriciano (Metasita) e organizações ligadas à Central Única dos Trabalhadores (CUT) do Vale do Aço.

Carta à população

A manifestação de ontem provocou congestionamento e lentidão no trânsito, gerando algumas críticas ao movimento. Após o ato, o Sindmon-Metal divulgou uma carta aberta à população para explicar os motivos do protesto. No documento, a entidade afirma que a mobilização foi organizada de forma pacífica e responsável e ocorreu após um longo processo de negociação marcado por dificuldades de diálogo com a empresa.
O sindicato também reconheceu os transtornos causados à população devido ao congestionamento registrado na região, mas destacou que houve preocupação em garantir a passagem de veículos prioritários, especialmente aqueles ligados a atendimentos de saúde e emergência.

Na carta, a entidade reforçou que a luta da categoria vai além de questões salariais. “Nossa luta não é apenas por salário ou escala de trabalho. É pela preservação da dignidade humana, pela valorização da vida e pelo direito de trabalhadores e trabalhadoras terem condições adequadas para exercer suas funções sem comprometer sua saúde e suas famílias”, diz um trecho do documento.

A expectativa agora está voltada para a assembleia desta sexta-feira, que poderá definir os próximos rumos do movimento. Segundo o presidente do Sindmon-Metal, caso o estado de greve seja aprovado, o sindicato passará a ter respaldo para ampliar manifestações e até mesmo avançar para uma paralisação, caso as negociações não apresentem evolução considerada satisfatória pela categoria. Essa é a primeira vez que a possibilidade de paralisação é tratada de forma aberta.

O sindicato reforçou, no entanto, que o estado de greve não representa a interrupção imediata das atividades, mas uma sinalização formal de que os trabalhadores permanecem em alerta e dispostos a intensificar o movimento caso não haja avanços nas negociações com a empresa.

Empresa reforça abertura ao diálogo

Em nota encaminhada aos trabalhadores, a ArcelorMittal afirmou, após a manifestação, que mantém sua postura de abertura ao diálogo e reiterou o compromisso em buscar uma solução para a questão dos regimes de turno da unidade de João Monlevade. A empresa ainda lamentou os transtornos causados pela manifestação, destacando os impactos gerados na rotina da população.

Segundo a siderúrgica, durante as negociações foram apresentadas propostas para construção de um acordo entre as partes, incluindo a sugestão de um acordo provisório por prazo determinado, que permitiria o retorno dos empregados ao turno de revezamento e o restabelecimento de vantagens salariais previstas no acordo anterior.
A empresa também informou que trabalhou na elaboração de tabelas alternativas ao turno fixo, incluindo duas propostas inéditas, como forma de demonstrar disposição em construir um ponto de convergência.

Por fim, a ArcelorMittal destacou que “continuará tratando o tema com toda a seriedade necessária, em respeito à confiança depositada por todos os seus empregados ao longo desses anos. Esperamos que a melhor solução seja alcançada o mais breve possível, de forma responsável e pacífica como deve ser”, concluiu a nota.