Um jovem monlevadense tornou realidade o sonho acalentado para milhões de estudantes em todo o Brasil. Aos 18 anos, Pedro Henrique Freitas Souza acaba de ser aprovado no concorrido vestibular de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), considerada a melhor casa de estudos da América Latina.
Dedicação desde o berço
Pedro é filho do policial civil aposentado Adailton José de Souza e da empreendedora Lúcia Lourdes de Freitas Souza, residentes no bairro Paineiras. Desde tenra idade, ele já nutria o sonho de tornar-se médico: “Sempre tive interesse na área de Medicina, que é uma área muito ampla e que abrange todas as áreas do conhecimento, e fica fácil achar uma área que você tem afinidade”.
O menino estudou na Associação Monlevadense de Ensino Cooperativo (Amec) e no Colégio Cesp até o último ano do Ensino Fundamental, e desde pequeno já se mostrava um aluno aplicado e disciplinado. Sua mãe conta: “Desde pequeno, quando vinha os trabalhinhos de escola, ele queria fazer bem-feito. Procurava gravuras para colocar nos trabalhos, para ilustrar. Ele não se contentava só com o básico”.
Primeiro teste
A partir do 8º ano do Ensino Fundamental, Pedro começou a estudar para tentar o ingresso no Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa (Coluni – UFV). Já nessa época, demonstrou afinco: além das aulas regulares pela manhã, fazia um curso preparatório três vezes por semana, e no tempo restante, resolvia exercícios e refazia provas antigas. Quando concluiu o “primeiro grau”, no fim de 2022, foi aprovado para a melhor escola pública do Brasil, seguindo o exemplo de três primos, que também são médicos.
Em Viçosa, cumpriu os três anos de Ensino Médio, numa instituição já reconhecida por seus processos seletivos rigorosos e pelo alto rigor acadêmico: “Os alunos estão determinados, estão focados para estudar. Esse é o diferencial. Muitos dos meus amigos já passaram. Todos estão focados, um ajuda o outro. É esse ambiente de colaboração”. Quando prestou o exame para admissão no Coluni, o jovem monlevadense ficou em segundo lugar, e a relação era de 19 candidatos para cada vaga.
Enquanto estudava, Pedro já almejava ingressar numa grande casa de estudos superiores, como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) ou a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Todavia, o grande foco era a universidade da capital paulista. Seu pai conta que, ainda por volta do 8º ou 9º ano, ele discutia com seus professores em que instituição estudaria, pensando nas grandes universidades mineiras, quando um dos mestres disse que Pedro tinha capacidade para ingressar na Universidade de São Paulo.
Renúncias
A aprovação, claro, não veio sem abnegação e sacrifício. Durante a manhã, tinha as aulas regulares. À tarde, fazia um cursinho preparatório para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), e à noite, uma outra capacitação para o Programa de Ingresso Seletivo Misto (Pism) da UFJF. No tempo livre, conciliava os estudos autônomos, com a resolução de questões e provas antigas, e o descanso. Ao todo, eram cerca de 11 horas diárias de estudo, durante um ano: “Não é uma rotina romantizada”.
Pedro admite que é mais afeito às ciências exatas e naturais, enquanto possui alguma dificuldade às humanidades e à linguagem. Ele fazia, ao menos, uma redação por semana, além das que escrevia para a escola. Em geral, os simulados também eram semanais. Os estudos estendiam-se até aos sábados: “Quando você toma a decisão de estudar para o vestibular, o seu foco de estudos tem que ser isso. É claro que estudar para a escola vai ajudar, mas o seu foco tem que ser o vestibular”.
Sua mãe, Lúcia Freitas Souza, destaca o apoio dado ao filho em sua jornada acadêmica, e as renúncias a que ele se impôs: “Eu sempre acreditei nele. Desde quando ele tomou essa decisão do Coluni, ele sempre se esforçou e dedicou muito, e deixou até de fazer coisas da rotina dele, que ele gostava muito, como por exemplo, o futebol. Ele tinha uma rotina de jogar duas ou três vezes na semana. Durante a preparação para o Coluni, ele praticamente nem jogou. Então, eu acreditava muito nele. Nunca cobrei, nunca pressionei, sempre apoiei. Sempre que possível, estava do lado dele. No fundo, eu acreditava. O sonho dele alimentou o nosso sonho também”.
O teste e a vitória
O ingresso na Universidade de São Paulo veio através do Provão Paulista, um exame seriado que abre vagas nas instituições estaduais de ensino superior, como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), além da própria USP. Ao prestar o teste, Pedro escolheu, em ordem de preferência, as unidades de USP Pinheiros, USP Ribeirão Preto, Unicamp Campinas e Unesp Botucatu.
Pedro foi aprovado na única vaga do Provão Paulista dedicada ao seu grupo, o das escolas públicas: “O Provão Paulista se difere dos outros vestibulares porque as questões não são tão conteudistas em si. Você precisa de um número elevado de acertos, pois qualquer deslize deixa você para trás”. Cada prova possui 90 questões, e no primeiro ano, Pedro teve 81 acertos; no segundo, 76; e no terceiro ano, 84. Além do Provão Paulista, a USP também admite alunos pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e pelo vestibular tradicional da Fuvest.
O triunfo na USP não foi o único para Pedro. O jovem monlevadense ainda foi aprovado em Medicina na Universidade Federal de Juiz de Fora através do Pism, também um exame de ingresso seriado, em primeiro lugar para o campus Governador Valadares, sendo o terceiro na ampla concorrência, além de também ter nota suficiente para ingressar no campus de Juiz de Fora. No entanto, ele optou pela casa de estudos paulista: “Você estuda sem saber se terá resultado. Quando sai o resultado, vem o sentimento de alívio, de que nada foi em vão. Não seria, mesmo que eu não tivesse passado, mas vem o sentimento de dever cumprido”.
Sonho realizado
As próximas semanas serão de grandes mudanças na vida de Pedro. Ele ainda definirá como será sua vida em São Paulo, se alugará um apartamento ou se residirá numa república estudantil. A nova morada deve ser nos bairros de Pinheiros e do Butantã, mais próximos ao campus principal da USP. As aulas começam no próximo dia 23 de fevereiro.
A Universidade de São Paulo foi criada em 1934, enquanto a sua Faculdade de Medicina existe desde 1912. Entre os seus ex-alunos mais notáveis, estão os médicos Dráuzio Varella, famoso por suas participações no programa Fantástico e admirado por Pedro; Euclydes de Jesus Zerbini, responsável pelo primeiro transplante cardíaco na América Latina; e Adib Jatene, ministro da Saúde nos governos de Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso.
A Medicina é um campo muito amplo, com várias especialidades nas quais o profissional pode se aprofundar. Pedro tem um interesse especial tanto a cardiologia, que cuida do coração, quanto a oncologia, que trata o câncer. No entanto, o campo é aberto, inclusive para que ele atue tanto nos consultórios e hospitais quanto na própria universidade, como professor e pesquisador.
Pedro relembra que São Paulo possui prestigiadas instituições de saúde, como o Hospital Israelita Albert Einstein, o Hospital Sírio-Libanês e o próprio Hospital das Clínicas da USP. As expectativas são altas: “Estou sentindo muita ansiedade para começar, uma expectativa muito positiva, porque o curso é muito bom, muito bem falado. As oportunidades são muito boas, tem o Hospital das Clínicas, que é o hospital da universidade, é o melhor hospital público do Brasil. Tenho certeza de que as experiências que eu vou viver lá vão ser muito positivas”. Ele não pretende retornar a João Monlevade, mas tampouco fecha a porta a essa possibilidade.
Os pais de Pedro são formados em Direito; Adailton também possui uma licenciatura em Filosofia. Quando questionados se houve um estímulo em casa para que o jovem alçasse à vida universitária, seu pai responde: “Eu acredito que sim, porque o ambiente também ajuda a moldar o ser humano. O Pedro desde pequeno, sempre foi focado em estudar. Ele não era um menino que você estava falando assim ‘Faz isso, vá estudar, vá fazer seus deveres’. Ele sempre fazia por iniciativa própria. Isso é inato nele. Ele sempre se sobressaiu nas escolas”.
Incentivo aos vestibulandos
Pedro deixa uma mensagem de estímulo aos estudantes que anseiam por uma vaga nas grandes universidades: “Dedicar-se, estudar muito, acreditar, não deixar de ter fé e acreditar em Deus, que será feita a vontade dEle”.
Adailton também enfatiza a importância da dedicação aos estudos para obter o êxito, e cita o exemplo de um gari que se tornou juiz ao admirar-se da profissão enquanto varria o entorno do fórum: “Não existe fórmula, você não compra fórmula para o sucesso. Você não compra a sorte. Acho que o fator sorte não é uma variável”.
Para os pais e familiares, Lúcia também deixa uma mensagem: “Eu acho que é muito importante o apoio que as famílias têm que dar para os filhos. Nunca cobrar, porque é um momento de pressão para eles, até mesmo sobrecarga de estudos. Eu acho que é muito importante esse companheirismo, pois, realmente, não é fácil”.

