Há 25 anos, um grupo de trabalhadores que sobrevivia da coleta de materiais recicláveis no antigo lixão de João Monlevade dava os primeiros passos rumo a uma nova realidade. O que começou como uma iniciativa de inclusão social se transformou em uma das mais importantes experiências de reciclagem e geração de renda da região. Hoje, a Associação dos Trabalhadores de Limpeza e Materiais Recicláveis de João Monlevade (Atlimarjom) celebra seu jubileu de prata com uma trajetória marcada por conquistas, desafios e muito trabalho.

Em entrevista ao quadro do A Notícia, “Erivelton Braz Entrevista”, uma das fundadoras da entidade, Valdete Roza, relembrou os momentos que ajudaram a construir a história da associação. Desde 2001, a entidade tem o objetivo de oferecer dignidade aos antigos catadores do lixão e inseri-los em um modelo organizado de coleta seletiva. “A gente começou com muita dificuldade, mas com a certeza de que era possível transformar vidas por meio do trabalho”, recorda.

Valdete relembra que a mudança começou a ganhar forma em 2003, quando a Atlimarjom implantou um projeto piloto de coleta seletiva no bairro Vila Tanque. Na época, os associados visitavam as residências para orientar os moradores sobre a separação correta dos resíduos. O trabalho de conscientização deu resultado e abriu caminho para a expansão do serviço. Duas décadas depois, a coleta seletiva realizada pela associação está presente em 74 bairros de João Monlevade.

Trabalho que beneficia a cidade

A Atlimarjom desempenha um papel fundamental para o meio ambiente e para a economia local. Atualmente, cerca de 120 toneladas de resíduos são processadas mensalmente pela associação. Todo esse volume, conforme Valdete, deixa de seguir para o aterro sanitário utilizado pelos municípios da região, reduzindo impactos ambientais e aumentando a vida útil da estrutura. Ao mesmo tempo, a atividade garante sustento para aproximadamente 20 trabalhadores, que dividem entre si os resultados obtidos com a comercialização dos materiais recicláveis.

Segundo Valdete, a associação opera em um sistema de autogestão. Todo o material recebido é separado, comercializado e convertido em receita para custear as despesas operacionais. O valor restante é dividido entre os associados. “É um trabalho coletivo. A gente vende o material, paga as contas e divide o que sobra. Tudo depende do esforço de cada um e da quantidade de material que conseguimos processar”, explica.

Crescimento e desafios

A história da Atlimarjom também é marcada por momentos decisivos. Um dos mais importantes ocorreu em 2017, quando a associação conquistou seu primeiro caminhão próprio. A aquisição permitiu ampliar significativamente a cobertura da coleta seletiva, que saltou de 23 bairros para praticamente toda a área urbana do município.

Mas o crescimento trouxe novos desafios. Segundo Valdete, desde o início deste ano o volume de materiais recebidos aumentou consideravelmente. O resultado é um galpão cada vez mais cheio e uma equipe insuficiente para processar toda a demanda na atualidade. A associação estima que seriam necessários pelo menos mais 15 trabalhadores para garantir o funcionamento ideal das operações.

Além da falta de mão de obra, outro problema afeta diretamente a sustentabilidade financeira da entidade: a baixa valorização de alguns materiais recicláveis no mercado. O papel, por exemplo, é comercializado por valores considerados muito baixos, o que reduz a receita e dificulta o equilíbrio das contas.

Reconhecimento e valorização

Ao completar 25 anos, a Atlimarjom defende uma discussão mais ampla sobre o papel desempenhado pelos catadores na gestão dos resíduos sólidos do município.
A associação já recebe apoio para a realização da coleta, mas reivindica que o poder público amplie o reconhecimento do serviço prestado, contemplando também as etapas de triagem, processamento e destinação correta dos materiais.

Para Valdete, investir na reciclagem é investir na cidade e, enquanto celebra um quarto de século de existência, a Atlimarjom segue olhando para o futuro. A meta é ampliar a estrutura, modernizar os equipamentos e garantir melhores condições de trabalho para os catadores que ajudam diariamente a transformar resíduos em oportunidade.

A fundadora também deixa um recado para a população: continuar separando corretamente o lixo seco do orgânico. “Não existe jogar fora. Tudo continua no planeta. Cada pessoa tem sua responsabilidade. Quando a população separa os materiais corretamente, ajuda o meio ambiente e ajuda também as famílias que vivem da reciclagem”, conclui.

“Erivelton Braz Entrevista”

A entrevista completa com Valdete Roza, repleta de histórias, desafios e reflexões sobre o futuro da reciclagem em João Monlevade, está disponível no canal do A Notícia no YouTube, que pode ser acessado através deste endereço.