Deslocar-se por João Monlevade é um desafio para qualquer cidadão. Mas para quem tem mobilidade reduzida, como idosos, mães com carrinhos de bebê e pessoas com deficiência física, o cenário é ainda mais complicado e, por vezes, desumano. Nesta semana, A Notícia acompanhou um trajeto do cadeirante Luís Eduardo Souza Ferreira, morador do bairro República, e ouviu dele um relato sincero sobre os obstáculos cotidianos que enfrenta para exercer um direito básico: ir e vir. Confira a entrevista:

A qualidade das calçadas está longe do ideal nas áreas urbanas brasileiras. Buracos, obstáculos e construções irregulares ameaçam a segurança do cidadão. É o que mostram os resultados da Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no Censo de 2022.

Qual a sua opinião, em linhas gerais, acerca deste assunto?

Em linhas gerais, preocupa-me a falta de manutenção das calçadas, problema que afeta diretamente a vida dos pedestres, principalmente idosos e pessoas com deficiência, impactando sua qualidade de vida. Há que se pensar na necessidade de investimento em planejamento urbano, no que diz respeito às novas ruas e bairros, preservando a segurança dos cidadãos. Que as autoridades, seja Federais, Estaduais ou Municipais, tomem medidas para que se cumpram as leis. A qualidade das calçadas está longe do ideal nas áreas urbanas, obrigando as pessoas com mobilidade reduzida, principalmente cadeirantes e seus condutores, a utilizarem o asfalto, arriscando-se no meio do trânsito.

Como você avalia a acessibilidade das calçadas em João Monlevade?

Do ponto de vista de um cadeirante, que é minha condição desde o meu nascimento, a cidade de João Monlevade tem calçadas variadas com diferenças de largura, inclinação e tipo de piso, combinando ou não com o padrão do estabelecimento. Como não há padronização na maioria delas, isso dificulta a questão da mobilidade e locomoção. Há calçadas irregulares, com aclive e declive, obstáculos, pisos lisos, antiderrapantes e em alto relevo. A acessibilidade das calçadas não está precária e nem em perfeitas condições de uso, mas, nessa situação, um cadeirante sempre necessita da ajuda de pessoas na condução da cadeira de rodas para atravessar a rua ou descer e subir de uma calçada para outra, bem como para entrar no estabelecimento.

Como isso afeta sua rotina e independência?

Desde os 13 anos de idade faço uso de cadeira de rodas manual e há um ano e três meses passei a fazer o uso de cadeira motorizada. Com cadeira manual era mais difícil de chegar até o centro da cidade, necessitando de carro e, consequentemente, da ajuda das pessoas para montar e desmontar a cadeira, colocar/tirar do carro e empurrar. Tinha facilidade de entrar nos estabelecimentos apesar dos topes, degraus, portas estreitas e já cheguei a ser atendido na calçada. Já a cadeira motorizada facilita muito, evitando carro, montagem/desmontagem da cadeira e diminuindo a ajuda das pessoas. Entretanto, os topes, degraus, portas estreitas viraram obstáculos para entrar nos estabelecimentos e acessar os serviços, por ser uma cadeira muito pesada e difícil de ser guiada. Esses fatores afetam minha rotina e independência, impedindo-me de entrar e frequentar estabelecimentos e ambientes.

Você percebe iniciativas da Prefeitura ou da comunidade para melhorar isso?

Percebo iniciativa da Prefeitura asfaltando ruas, colocando rebaixamento nos passeios e calçadas nos dois lados da via. Seria interessante que houvesse esse rebaixamento em todas as esquinas. Percebo um cuidado com a sinalização do acesso, seguindo e colocando em prática as leis de acessibilidade para os estabelecimentos novos. Para os estabelecimentos antigos já construídos tem havido adaptações, mas sem manutenção periódica e conhecimento técnico. Quanto à comunidade, já há uma conscientização maior e busca de conhecimento e informação com interesse em ajudar e anteder às necessidades dos cadeirantes.

Em sua opinião, qual seria a prioridade para a cidade?

O que seria prioridade para melhorar nossa acessibilidade seria o aumento de calçadas e passeios mais adequados (com reparos nos estragos) e fiscalização, para que as calçadas estejam mais livres para tráfego de cadeirantes e pedestres, sobretudo nas áreas de maior circulação. Outra situação: que os canteiros centrais das avenidas sejam dotados, principalmente nas faixas paralelas de pedestres, de cavas ou valas que permitam ao cadeirante movimentar-se com mais presteza. Nos prédios e imóveis, elevadores ou rampas para o acesso a todas as salas. Aliás, o ideal seria que houvesse uma legislação que definisse, por exemplo, largura de portais: não poucas vezes, frequento lugares e não consigo realizar uma necessidade básica que é usar um reservado, pois a cadeira não passa na porta.

Você acha que a sociedade entende a luta da pessoa com mobilidade reduzida?

A sociedade tem-se mobilizado na conscientização da inclusão destas pessoas. No entanto, há ainda algo a se fazer para minimizar as barreiras físicas, sociais e atitudinais que dificultam a participação desse público na sociedade. Pessoa com mobilidade reduzida precisa de espaços públicos e privados adaptados, sites e aplicativos acessíveis, visibilidade nas redes sociais, paciência, respeito, compreensão e entendimento de suas necessidades e conhecimento de suas habilidades. Precisa também de políticas público-privadas que lhe garantam tecnologias citadas acima que facilitem sua vida independentemente de sua renda. Por fim, poderia citar uma questão cultural: que não sofra discriminação social.

Se pudesse sugerir uma ação imediata para o município…

Uma ação imediata que sugeriria ao Município: garantir calçadas largas, com piso tátil e sem obstáculos, consertando estragos casualmente acontecidos. O reparo de avarias, evitaria, no mínimo, quedas certeiras, como aconteceram comigo recentemente, causando danos a minha cadeira, riscos de lesão, constrangimento pessoal e preocupação das pessoas em me acudir. Outro tipo de ação, essa mais social e comportamental, seria a promoção de campanhas educativas sensibilizando a população para os problemas das pessoas com deficiência. Será que seria muito sonhar com um Setor público especial? Fica a dica para os vereadores.

Qual seria o impacto para você e para João Monlevade se as calçadas fossem adequadas?

O impacto para João Monlevade seria a presença de mais pessoas com mobilidade reduzida nas ruas tendo acesso aos serviços e estabelecimentos, socializando com outras pessoas com mobilidade reduzida, usufruindo das programações oferecidas pela cidade e permitindo a entrada nos estabelecimentos com menor dificuldade. Para mim e todas as pessoas com mobilidade reduzida, seria a independência, autonomia e liberdade no exercício da cidadania e no direito ao consumo.