A Câmara dos Deputados aprovou nesta semana, em dois turnos, o fim da escala 6×1, com limitação da jornada de trabalho em 40 horas semanais, com dois dias de folga, sendo um preferencialmente aos domingos. A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) agora segue para o Senado e, se aprovada, passará a valer depois de dois meses da sua publicação, com a aplicação em duas escalas, inicialmente 42 horas semanais e, após um ano e dois meses, se ajustará às 40 horas por semana.
A escritora Carolina Maria de Jesus, brasileira, mulher, mãe, preta, catadora, na década de 50 escreveu em sua obra Quarto de Despejo que “pobre não repousa. Não tem privilégio de gozar descanso”. Passados 138 anos da abolição da escravatura e 70 dos escritos de Carolina, estamos à beira de se conquistar mais um dia de descanso depois de cinco de trabalho, em 40 horas semanais, frente a média de 35 horas dos países desenvolvidos, conquistados desde o pós-Segunda Guerra.
Segundo dados do Ipea, atualmente, 56% da mão de obra brasileira submetida à jornada de 44 horas semanais é feminina. Por isso, o fim da escala 6×1 impacta diretamente a força de trabalho das mulheres, sobrecarregadas na dupla e exaustiva jornada profissional e doméstica.
São as mulheres as principais responsáveis pelos cuidados do lar, dos filhos e idosos, e seu massivo ingresso no mercado de trabalho na década de 70 não a exonerou, tampouco minorou esse encargo.
Neste contexto, o fim da escala 6×1 atende primordialmente o público feminino, para lhe dar um dia a mais na semana para cuidar de si, de seus interesses pessoais, do lazer e quiçá de política.
É nesta esfera que a escala 6×1 também pode vir trazer reflexos positivos. A mulher na política é assunto que tem ganhado pauta, eis que a cada eleição são implementadas novas regras de incentivo à participação feminina na vida política do país.
Gradativamente vêm surgindo mais lideranças políticas femininas, que atualmente representam 18% do atual Congresso Nacional, se comparados aos 10% nas eleições de 2014. Esse aumento se deve às regras de incentivo à participação feminina e de cunho protetivo às suas candidaturas. Dentre elas estão o mínimo de 30% de candidaturas para cada gênero, a cassação a todos os eleitos das legendas partidárias condenadas por fraude à cota de gênero, a extensão do mínimo de 30% ao repasse financeiro dos fundos eleitorais às candidaturas femininas, vedação do uso ou alteração de imagens de sexo ou nudez na propaganda eleitoral na internet, o constante combate à violência política de gênero etc.
Desde então, as mulheres vêm, a passos lentos, se interessando mais por política e participando mais ativamente dos rumos políticos de nosso país. Essa baixa representatividade feminina na política advém de barreiras estruturais, dentre elas o patriarcado e a essa sobrecarga do trabalho doméstico e do “dever” de cuidado.
Por isso, permitir mais um dia de folga surtirá efeitos, a médio e longo prazo, também na participação política feminina. Quantos talentos femininos são sufocados pela falta de tempo, pelo cansaço da labuta diária? Quantas mulheres com vocação política estão sobrecarregadas e sufocadas na sua dupla jornada? Esses números não existem, porque não são palpáveis. Estão nos recônditos dos lares domésticos.
Somente o tempo e mais horas de folga poderão nos trazer números de mais mulheres na arte, na literatura, no esporte e na vida política do nosso país. Ainda nas palavras da sábia Carolina “quando o homem decidir reformar a sua consciência, o mundo tomará outro roteiro”.

