Enquanto isso, naquela reunião de campanha…
— Olha, pessoal. Eu quero uma campanha limpa. Não vou falar mal do adversário; vou até falar bem. Não tenho nada contra ele. Quero uma campanha baseada na verdade.
— Isso mesmo. Temos de fazer diferente.
— Acho que o senhor pode falar o quanto é dedicado à família. Mostrar depoimentos da sua esposa, dos filhos, parentes e amigos.
— Isso mesmo. Vamos falar de valores.
— Outra coisa: o senhor pode mostrar como ajuda os pobres, das festas de Natal que promove, vestindo-se de Papai Noel e distribuindo presentes.
— Sim. Tenho muitas filmagens.
— Outra ideia: apresentar o plano de governo. Mostrar como pretende fazer render o orçamento, os projetos para melhorar a saúde, a educação, consertar as praças, o calçamento, atrair empresas e gerar emprego e renda.
— Isso mesmo. Estou gostando.
— Querem saber de uma coisa? Vocês estão em Nárnia.
— Mas como assim?
— Vocês acham que essas ideias vencem uma eleição?
— E por que não?
— Vocês estão muito inocentes. Não estamos em Nárnia. Estamos no Reino da Esbórnia.
— Campanha suja, nem pensar.
— Se vocês querem perder a eleição, falem logo que vou embora agora. Não vou ficar aqui perdendo meu tempo.
— Não. Diga o que você pensa…
— Primeira coisa: querem ganhar com palavrinhas doces para os adversários? Tem de achar os pontos fracos, fincar e torcer a faca. Todo mundo tem um ponto fraco: uma falha de caráter, uma traição, algum “trem” errado. Escândalos sexuais são os melhores. Chifres, gente que sai do armário… Com duas cervejas nos botecos, a gente descobre tudo. E meme em cima. O povo gosta é da esbórnia.
— Segunda coisa: gerar dúvida quanto à religiosidade do adversário. Ele sempre vai ter uma religião, e é fácil jogar os simpatizantes de outras crenças contra ele. Entenderam?
— Terceira: sair pelas ruas procurando buracos para criticar. O povo adora esse tipo de expediente. Denunciar, xingar… Podemos ter um governador que chegou lá usando exatamente isso. Tem de fazer cara de nervoso, dar xilique.
— Quarta: prometer que vai acabar com a bandidagem, que “bandido bom é bandido morto”, que vai acabar com os criminosos e sumir com os mendigos.
— Quinta: reservar uma verba para comprar alguns jornalistas e veículos de mídia para falar bem da gente e mal dos outros.
— Sexta: gravar conversas e vídeos com pessoas influentes para amarrá-las politicamente.
— Sétima: prometer tudo para quem pedir — e até para quem não pedir. Cargos e secretarias para vários cabos eleitorais.
— Oitava: achar um jeito de se fazer de vítima, de perseguido. O povo adora sentir pena dos candidatos e do sofrimento deles. Um tiro de raspão, uma facada… isso pode ganhar eleições.
— Nona: arrecadar bastante dinheiro dentro das regras, com empresários já de contratos combinados. E também por fora, em espécie, para comprar votos.
— Décima: ter um jurídico com habilidade para dar nó em pingo d’água, inclusive para “doping financeiro”, quando for o caso.
— Você tem consciência de que está propondo um monte de coisas ilegais?
— Meu querido, Maradona ganhou uma Copa do Mundo com um gol de mão. Pergunte se os argentinos o condenam…
— O senhor andou lendo Maquiavel?
— Maquiavel é jardim de infância da política. Estou falando de 2026. Esqueçam Nárnia.
Bem-vindos à Esbórnia.