(*) Marcos Martino 

Faço jingles políticos há alguns anos e tive a sorte de criar muitos jingles vitoriosos na região. O primeiro jingle que fiz foi para o Dico Lavanca em Alvinópolis. Depois fiz para Inhô e Pezão em Santa Bárbara, para Dr Jair e Djavan em Barão. Depois fui “tetra campeão” em João Monlevade. Fiz os jingles nas 3 vitórias do Dr. Laércio. Fiz também para a vitória de Prandini e Bastieri. Fiz também para Galo Índio em Alvinópolis, para o Lindouro que venceu recentemente. Fiz também para Nozinho quando ganhou para deputado, quando ganhou para prefeito também. Eu sei que o jingle é apenas um item de uma campanha. Mas pelo menos tenho sido pé quente, com muitos cases vitoriosos.

Esses dias um publicitário amigo meu me falou: – “É Martino. Esse mercado de jingles praticamente acabou né? Com a IA os marketeiros vão jogar o briefing no Suno. IA, escrever um prompt mais ou menos e em menos de 5 segundos faz 10 jingles”.
Eu falei pra ele: “rapaz, eu não penso assim. E o próprio mercado tem me mostrado isso todos os dias. Marinheiros de primeira viagem podem até utilizar e se gabar de produzir 300 músicas a preços de banana ou até de graça. Mas os candidatos que querem mesmo vencer e os melhores profissionais de marketing sabem que a criação e produção humanos ainda fazem total diferença”.

A IA nos imita, emula sentimentos, repete fórmulas, mas não sente dor, prazer, ciúme, inveja, amor ou ódio. Se você entrega um briefing e pede uma música “grude”, ela entrega. Mas lá no fundo a gente sente que falta alguma coisa. Conheço muitos que operam no “IA DETECT” e cancelam automaticamente tudo que desconfiam que foi feito com IA. Em parte tem razão. A banalização estética e a formatação de tudo pelas IAs incomoda. Não por falta de qualidade, mas por mediocridade e excesso.

O desafio verdadeiro é descobrir o que permanece essencialmente humano quando as máquinas passam a fazer tantas coisas que antes julgávamos exclusivas da nossa espécie. E como tudo que é criado pela humanidade, a IA é ferramenta, ameaça, oportunidade, amplificador, risco, parceiro criativo e instrumento de manipulação. Tudo ao mesmo tempo. Uma moeda de muitas faces.

E tem outra coisa: o que exatamente é a criatividade? Porque quando uma pessoa compõe, ela também mistura referências, memórias, influências e fórmulas aprendidas ao longo da vida. A IA faz algo parecido. A diferença é que nós temos experiência vivida. Nós enterramos amigos, nos apaixonamos, envelhecemos, fracassamos, temos contas para pagar. Sentimos vergonha, saudade. Talvez a alma, o espírito humano esteja justamente aí, não necessariamente numa dimensão religiosa, mas numa trajetória, numa biografia. Uma máquina tem informação, mas uma pessoa tem história. Outro dia uma pessoa me disse que falta alma. Já vi gente dizendo que a IA não acredita em Deus, portanto, alma também não faz sentido para ela. Mas quando o poeta ou compositor cria e depois produz o arranjo em parceria com a IA, ele coloca alma e sentimento e a IA espelha.

O mesmo vale para a escrita. Dá para lapidar certos textos usando IA, desde que saibamos preservar nossa essência, sotaque, ironicamente, nossas digitais nesse mundo. Não, não integro o continente dos inimigos ou tementes da IA. Muito pelo contrário. Dá para produzir beleza, dá para criar junto, dá para amplificar e produzir coisas inimagináveis. Mas sem o ser humano, a IA não vale nada…

(*) Marcos Martino é alvinopolense, ativista cultural e compositor