(*) Márcio Passos

Havia tempos em que os nomes das ruas eram mais do que placas — eram histórias gravadas na alma. Favela… nem me lembrava que assim se chamava aquela rua que conheci ainda criança, e que nunca deixou meu coração. Ficava paralela à do atual Zebrão, num tempo em que o vestiário da Belgo era só promessa a ser concretizada a alguns metros acima da guarita, onde o ponto de ônibus vigiava o ir e vir da cidade.

De um lado, poucas casas. Do outro, trilhos e barrancos, como um cenário esperando ser pintado. E ali, solitário e marcante, o único comércio de armas e munições da região: a Casa Jaime. Lugar de cheiros e sons que, para mim, eram pura magia. Com o tempo, ela se mudou para a saudosa Praça do Mercado e, depois, para Carneirinhos — mas o encanto permaneceu intocado.

À esquerda da Favela, próxima à imponente Fazenda Solar, corria a antiga Rua dos Contratados, onde, anos mais tarde, a loja de Gracinha Dias trouxe à cidade a primeira boutique que meus olhos viram. Essas lembranças, como se tivessem ficado guardadas em um baú, voltaram a mim enquanto percorria, página a página, o livro Crônicas e Contos do Bazar Monlevade. Obra do escritor monlevadense Jairo Martins de Souza, filho do dono da Casa Jaime, que me presenteou com uma cópia provisória e o honroso convite para escrever sua apresentação — convite que mais pareceu um presente para minha alma.
Jairo chega ao seu sétimo livro com a mesma marca que o acompanha desde o primeiro: a capacidade de transformar memória em arte, e cotidiano em poesia. Seus textos, precisos como o cálculo de um engenheiro, carregam também a delicadeza de quem escreve com a alma nas mãos.

Ele diz não ser pesquisador da história. Mas seus livros o desmentem: são documentos vivos, feitos de afeto, onde João Monlevade respira e se reconhece. A cidade já lhe deve muito — a ele e a outros, como o professor Dadinho —, que trabalham sem holofotes, apenas para que o fio de nossa história nunca se rompa. Esses trabalhos merecem mais que gratidão: merecem o olhar atento e o apoio do Poder Público. Porque preservar nossa memória é preservar a própria cidade — esta João Monlevade que é de todos nós, tecida por gente de centenas de cantos do país e do mundo, e que continua viva enquanto houver quem conte suas histórias.

O livro pode ser encontrado através do link: https://a.co/d/04vltI0R

(*)Márcio Passos é jornalista e fundador do A Notícia