(*) Cleverson de Sá
Eu também me peguei pensando: “Mas será que as pessoas não estão vendo?” Vendo os escândalos, as contradições, as incoerências… Vendo tudo isso e, ainda assim, votando de uma maneira que, para mim, parece difícil de compreender.
Mas talvez exista uma certa arrogância escondida nessa pergunta. E talvez seja justamente essa arrogância que nós, do campo progressista, precisemos ter coragem de encarar.
Como professor de Geografia, aprendi que não existe território apenas no mapa. Existe território vivido: a experiência de quem mora, trabalha, circula e constrói sua vida naquele lugar. Duas pessoas podem olhar para a mesma paisagem e enxergar coisas completamente diferentes.
Talvez, com a política, seja a mesma coisa. As urnas estão tentando nos dizer alguma coisa. Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno à frente de Lula (PT), o PL ampliou sua força política nos estados e uma parcela enorme dos eleitores não escolheu nenhum candidato à Presidência.
Podemos dizer que essas pessoas foram manipuladas, que não entenderam ou que são alienadas. Ou podemos fazer algo mais difícil: tentar entender. Trabalhador não é apenas trabalhador. Ele também é pai, mãe, filho, marido, esposa, religioso ou não, morador de determinado bairro, alguém preocupado com segurança, salário, família, fé, futuro e dignidade. Tudo isso pode existir dentro da mesma pessoa.
Talvez tenhamos simplificado pessoas que são muito mais complexas do que nossas explicações sobre elas. E talvez a esquerda tenha começado a falar demais sobre o povo e de menos com o povo.
Como professor, aprendi que dominar o conteúdo não significa necessariamente saber ensiná-lo. Podemos preparar uma excelente aula, explicar tudo corretamente e, ainda assim, não conseguir chegar ao aluno. Às vezes, não falta informação. Falta conexão. Nossa linguagem funciona dentro das nossas bolhas. Mas será que funciona na fila do ônibus, no bar, no comércio, na periferia ou na conversa de família? Talvez o erro tenha sido imaginar que, porque defendemos políticas que beneficiam um grupo, automaticamente, esse grupo deveria se identificar conosco.
Mas não funciona assim. Tenho pensado nisso a partir de algo que venho tentando aprender com o budismo: desapegar da certeza de que estamos sempre certos. É difícil, principalmente, quando acreditamos defender uma causa justa.
Não se trata de abandonar direitos humanos, justiça social, igualdade ou liberdade para ganhar uma eleição. Trata-se de entender que ter razão e construir maioria são coisas diferentes.
Na bicicleta, aprendi algo sobre equilíbrio. Não se pedala olhando apenas para onde estamos. É preciso olhar para frente, perceber o terreno e corrigir a direção. Na política talvez seja assim. Não adianta ficar indignado porque a estrada não está como gostaríamos. É preciso entender o terreno.
E talvez nosso maior problema seja querer explicar o voto do outro antes de ouvi-lo. “Como ele consegue votar nisso”? Talvez a pergunta seja outra: por que aquilo que defendemos deixou de produzir identificação política para tanta gente?
Por que a direita consegue transformar medo, segurança, religião, família e pertencimento em linguagem política? E por que políticas que beneficiam trabalhadores nem sempre fazem com que eles se sintam representados pela esquerda?
Talvez porque tenhamos confundido nossa bolha com o país. E o Brasil é muito maior do que qualquer bolha. É contraditório, religioso, secular, conservador, progressista, pobre, rico, esperançoso e ressentido. Muitas vezes, tudo isso dentro da mesma pessoa.
Por isso, talvez a urna não esteja dizendo apenas alguma coisa sobre a direita. Talvez esteja dizendo alguma coisa sobre nós. Antes de explicar o voto do outro como ignorância, talvez seja preciso escutar. Escutar sem necessariamente concordar, sem abandonar nossos valores e sem transformar o outro em inimigo.
Porque ninguém constrói maioria desprezando justamente as pessoas que pretende representar. E talvez a pergunta mais incômoda seja também a mais importante: E se os idiotas formos nós?
Não porque tudo o que acreditamos esteja errado, mas porque talvez estejamos tão preocupados em provar que temos razão que esquecemos o básico: se queremos mudar o mundo, primeiro precisamos conversar com quem vive nele.
(*) Cleverson de Sá é professor de Geografia em João Monlevade e ciclista
@cleversongeografia


