João Monlevade tem um problema curioso, que também é comum a algumas cidades brasileiras. O município reclama que não tem cultura, que não tem lazer, que não tem opções de entretenimento. Reclama que, por aqui, não acontece nada. Reclama que os artistas não têm espaço e que é preciso ir a Belo Horizonte, Itabira ou outra cidade da região para encontrar algo interessante.

Mas, quando alguma coisa acontece, as pessoas vão prestigiar? Ou preferem não ir? É uma contradição antiga. Se como diz a música de Maurício Tapajós e Aldir Blanc, “o Brasil não conhece o Brasil”, em escala menor, Monlevade não conhece Monlevade. Conhecemos o shopping de outra cidade, o restaurante que alguém indicou, o evento que viraliza porque veio de fora. Mas, muitas vezes, não sabemos quem é o artesão da nossa rua, quem escreve poesia, quem compõe música, quem mantém viva uma manifestação popular aqui mesmo.

É nesse ponto que entra a Feira no Centro Público da Economia Popular e Solidária, no bairro José Elói. O espaço, que agora funciona em todas as sextas e sábados, revela a cidade que nem sempre conseguimos enxergar. Ali estão artesãos, músicos, produtores, artistas, gastronomia, diferentes expressões culturais e a possibilidade de uma cidade se reconhecer em seus próprios moradores. Ou seja, é um novo ponto de cultura da cidade e que merece ser prestigiado.

Não basta exigir que a cidade ofereça cultura. É preciso consumi-la. Comparecer, prestigiar, comprar, ouvir, assistir, prestigiar os talentos. Cultura não sobrevive só de aplauso ou só em festas e shows. A cultura é viva e precisa de público, de circulação, de trocas. Sobretudo, de gente.

E isso tem tudo a ver com pertencimento de Monlevade. Pertencer a uma cidade é fazer parte de fato, é reconhecer as histórias, os lugares, as pessoas que constroem a identidade de um lugar. É saber quem fez, quem faz, quem ainda está fazendo. E isso pode se tornar um ativo para o turismo, para o fomento da economia. Monlevade precisa urgentemente de um mapeamento dos artistas, produtores culturais, escritores, artesãos com seus contatos e onde possam ser encontrados. Muitos estão na Feira da Economia Popular Solidária.

Até porque, para a economia criativa fluir, é necessária uma raiz que se planta com a tradição. Aqui está talvez a lacuna mais silenciosa de Monlevade. Falta um pertencimento, uma identidade, mesmo após quase um século desde que a cidade começou a surgir a partir da Usina de Ensch. Tradição não é nostalgia. Ao contrário, é continuidade, é o modo como uma cidade ensina a si mesma, ano após ano, quem ela é. Sem isso, cada geração recomeça do zero, e a cultura vira evento isolado em vez de identidade.

Monlevade não precisa deixar de olhar para o mundo para se inspirar. Precisa aprender a olhar para si mesma e criar as tradições que a farão se reconhecer amanhã. Capital do Fio Máquina, Berço da Siderurgia Nacional, terra do francês Jean Monlevade, enfim. Há muitas tradições que poderiam ser aproveitadas para valorizar a cultura local. Seria tão bom se Monlevade conhecesse e cultivasse Monlevade.

(*) Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação