(*) Erivelton Braz

Há perguntas que deveriam acompanhar cada um dos 15 vereadores durante uma sessão da Câmara Municipal: o que estamos discutindo aqui hoje vai fazer alguma diferença na vida das pessoas? O que estamos fazendo, de fato, para melhorar o dia a dia do monlevadense? São questionamentos simples, mas necessários.

Como jornalista e editor de A Notícia, acompanho o Legislativo de Monlevade há décadas e, ultimamente, tenho a impressão de que alguns debates estão ocupando um espaço maior do que deveriam. São discussões ideológicas, disputas de narrativa, interrupções desnecessárias e manifestações sobre temas que pouco contribuem para resolver os problemas concretos da cidade.

Claro que o vereador pode ter sua visão de mundo, sua religião, seu partido e suas convicções políticas. O que não pode perder de vista é que, depois de eleito, seu mandato deixa de representar apenas a si próprio ou aqueles que o apoiaram. Ele passa a representar toda a cidade.

E a principal função do Legislativo é legislar e fiscalizar. Isso significa acompanhar o cotidiano político do Executivo. Significa perguntar por que uma obra atrasou, por que determinado serviço não funciona, se uma empresa contratada está cumprindo o que foi estabelecido e se a Prefeitura está gastando corretamente.

Acontece que esse trabalho é menos barulhento do que levar determinadas pautas à tribuna. Muitas vezes não rende aplausos nem cortes de vídeos para as redes sociais. Mas é justamente aí que está uma das razões de existir uma Câmara Municipal.

Não há problema algum em discutir cultura, esporte, lazer ou qualquer outro assunto que faça parte da vida da cidade. O problema aparece quando pautas muito específicas passam a ocupar o espaço que deveria estar dedicado às questões de maior alcance.

Outra questão é que o mandato não pertence à categoria profissional que ajudou a eleger o vereador. Não pertence aos amigos ou aos apoiadores. Pertence à população que o escolheu. Fiscalizar, por sua vez, não significa ser contra o prefeito. Da mesma forma, apoiar uma proposta do Executivo não deveria transformar vereador em aliado automático. Uma Câmara independente é aquela que consegue aprovar o que considera correto e cobrar aquilo que precisa ser corrigido.

Isso é democracia. Assim como também é permitir que ideias diferentes ocupem a mesma mesa. É discordar sem transformar o adversário em inimigo. E é compreender que a tribuna é um espaço de representação pública, onde cada palavra tem um peso maior do que uma simples opinião publicada nas redes sociais. A Câmara não precisa ser silenciosa. Precisa ser útil e servir ao povo que elegeu os 15 vereadores.

João Monlevade tem problemas demais para ocupar os vereadores durante os quatro anos de mandato: saúde, transporte, educação, obras, orçamento, contratos, infraestrutura, emprego e qualidade dos serviços públicos. O cidadão que acompanha uma sessão deveria perceber que seus representantes estão atentos a tudo isso. E, sinceramente, nem sempre é o que se vê.

O que se espera do Legislativo é menos preocupação com a próxima postagem e mais atenção ao funcionamento da cidade. Menos disputa ideológica e mais fiscalização ao poder público, menos interesses particulares e mais interesse da coletividade. No fim, o cidadão sempre pergunta: para que serve uma Câmara Municipal? Será que os vereadores têm agido para responder isso? Representar a população, legislar, fiscalizar e fortalecer a democracia é o básico a ser feito por quem recebeu o voto e a confiança da maioria dos eleitores.