“Contar a história de João Monlevade também é contar a história das lutas dos trabalhadores que ajudaram a construir o município”. Essa é a opinião do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de João Monlevade e Região (Sindmon-Metal), Flávio Paiva Cordeiro. Fundada em 7 de setembro de 1951, a entidade completa, na próxima segunda-feira, 75 anos com uma trajetória marcada por mobilizações, negociações e conquistas para a categoria.
Em entrevista ao jornalista Erivelton Braz, Flávio Paiva relembrou momentos importantes das sete décadas e meia da entidade e falou sobre os desafios atuais do movimento sindical, entre eles a campanha salarial, a automação e os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho.
Da dependência à organização dos trabalhadores
Para Flávio, a própria data de fundação do sindicato, coincidente com o Dia da Independência do Brasil, simboliza uma mudança na relação entre trabalhadores e empresa. Durante décadas, a antiga Belgo Mineira exerceu forte influência sobre a vida econômica e social de Monlevade. “O sindicato veio trazer essa noção de pertencimento e independência para que o trabalhador pudesse andar com as próprias pernas”, afirma.
Segundo ele, um dos episódios mais marcantes dessa trajetória foi a greve de 1986, quando os trabalhadores permaneceram 23 dias mobilizados, em um dos movimentos trabalhistas mais importantes da história da cidade. A paralisação ocorreu no período de redemocratização do país e mobilizou não apenas os empregados da usina, mas também suas famílias e a comunidade. Missas foram realizadas na porta da fábrica e mulheres se organizaram para preparar alimentos para os grevistas. A mobilização ganhou repercussão nacional e se tornou referência na história sindical de Monlevade.
Inclusive, em comemoração ao aniversário do Sindicato, será lançado o livro “As Lutas Operárias no Brasil – A Greve da Belgo-Mineira em João Monlevade – 1986”, de autoria de Elizeu Antônio de Assis.
A conquista da jornada 4×4
Mais de três décadas depois, o sindicato voltou a enfrentar uma disputa envolvendo diretamente a jornada de trabalho. O encerramento do antigo acordo de escala e a implantação do turno fixo na ArcelorMittal provocaram forte reação entre os trabalhadores. Segundo Flávio, a mudança aumentou a insatisfação na categoria e teve reflexos como crescimento do absenteísmo e dos afastamentos.
Diante do impasse, o Sindmon-Metal articulou uma mobilização que reuniu 52 dirigentes sindicais de diferentes entidades. Um ato chegou a interromper, por pouco mais de uma hora, os acessos à usina e contribuiu para a retomada das negociações.
O desfecho foi a implantação da jornada de 12 horas de trabalho durante quatro dias por quatro dias de folga, o chamado sistema 4×4. Para o sindicato, a mudança representa uma das principais conquistas recentes da categoria e melhora a possibilidade de conciliação entre trabalho e vida pessoal.
O futuro do trabalho
Aos 75 anos, o Sindmon-Metal coloca em pauta a campanha salarial de 2026. Segundo Flávio, essa é uma das prioridades da entidade, em um cenário em que, segundo o presidente, os metalúrgicos enfrentam mais de 15 anos sem ganho real de salários. “As discussões começam no mês de outubro e o sindicato estará mobilizado para conseguir um resultado que seja bom para o trabalhador”, afirma.
Outro ponto de preocupação é a transformação tecnológica da indústria. Automação e inteligência artificial já modificam funções e processos dentro das fábricas, exigindo dos trabalhadores novas habilidades. Para o presidente do sindicato, a qualificação será cada vez mais determinante para a permanência no mercado de trabalho. “O trabalhador tem que entender que ele é uma ferramenta necessária para a empresa, mas precisa se valorizar através do estudo para não ficar à mercê do mercado”, destaca.
Por fim, Flávio Paiva destaque que, ao completar 75 anos, o Sindmon-Metal mantém como principal marca a capacidade de mobilização construída ao longo das décadas. “Uma história que se confunde com a própria trajetória industrial de João Monlevade e que continua sendo escrita diante dos novos desafios do mundo do trabalho”, afirma.


