A política não estava nos planos da jovem Luna Motta até a adolescência. No entanto, aos 18 anos, enquanto muitos de seus colegas de escola ainda tentavam decidir qual profissão seguir, ela tomou outro caminho. Entrou para a disputa eleitoral em Rio Piracicaba, venceu e tornou-se a vereadora mais jovem entre os 853 municípios de Minas Gerais.

Hoje, aos 20 anos e na metade do mandato, Luna ocupa um espaço que ainda é pouco comum na política: o de uma jovem mulher que chegou ao Legislativo pela porta da participação estudantil. Ela também informa que decidiu transformar a comunicação em uma das principais ferramentas de seu mandato.

Em entrevista no quadro “Erivelton Braz Entrevista”, do canal A Notícia, a vereadora falou sobre sua trajetória, os projetos que defende, os preconceitos enfrentados no ambiente político e os desafios para ampliar a presença de jovens e mulheres nos espaços de poder.

Nascida em João Monlevade e filha de uma família de São Domingos do Prata, Luna mudouse para Rio Piracicaba aos cinco anos. A política, entretanto, nunca foi um projeto de infância. “Eu nunca imaginei. Meus colegas de escola sabiam o que queriam ser, mas eu não tinha nada definido. Eu sempre gostei da comunicação, era líder de turma e muito faladeira”, conta.

A aproximação com a política, conta, ocorreu no ensino médio, por meio do Parlamento Jovem, iniciativa que reúne câmaras municipais, PUC Minas e Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). No terceiro ano, Luna foi escolhida por cerca de 40% dos estudantes para representar Rio Piracicaba no projeto. Foi ali que, segundo ela, nasceu a vontade de participar efetivamente da política. “Foi o Parlamento Jovem que abriu meus olhos para a política de mandato”, afirma.

Leis que nasceram do cotidiano

Já no Legislativo, Luna procura transformar experiências e demandas sociais em propostas. Uma de suas primeiras leis aprovadas garante prioridade de matrícula para mães atípicas em escolas ou creches próximas de suas residências ou locais de trabalho. A proposta, segundo ela, nasceu também de uma perspectiva feminina. “Foi pensando na mulher. Sendo mulher, sinto essa dor, que talvez um vereador homem não priorizasse”, explica. Ela também é autora de um projeto de Lei que amplia a licença paternidade para 30 dias, de servidores públicos.

Outra frente do mandato é a inserção dos jovens no mercado de trabalho. Luna defende o projeto Primeiro Emprego, estruturado a partir de uma feira anual de capacitação profissional, em parceria com empresas, além de oficinas voltadas para habilidades comportamentais e cuidados com a saúde mental.

Também está entre suas propostas o Programa Bairro Feliz, que prevê a possibilidade de remuneração de moradores para atividades de manutenção básica e vigilância de praças e quadras esportivas nos bairros. Na área econômica, a vereadora é autora de uma lei de incentivos fiscais para empresas que se instalarem no município e contratarem mão de obra local. “A mineração parou em alguns momentos e precisamos diversificar a economia”, afirma.

A causa animal também entrou na agenda do mandato. Luna destinou recursos para a reestruturação da associação municipal de proteção animal, possibilitando ações de castração, aquisição de ração e contribuindo para mais de 60 adoções de animais de rua.

O preço de ser jovem e mulher

A pouca idade, que fez dela uma personagem nacionalmente curiosa no cenário político mineiro, também trouxe dificuldades. Luna conta que precisou enfrentar, desde a campanha, comentários que colocavam em dúvida sua capacidade por causa da idade. Um dos episódios ocorreu durante uma prova de direção, quando ouviu do examinador que jamais votaria em uma “criança”.

Dentro do plenário, as críticas também ganharam contornos pessoais. “Quando você é jovem na política, precisa provar sua capacidade três vezes mais. Mas capacidade não está associada à idade”, afirma. Ela também relata ter sido chamada de “nojenta” por outra mulher depois de defender uma posição na tribuna.

Para Luna, o episódio revela um problema maior enfrentado pelas mulheres na política. “Muitas vezes, a mulher firme é rotulada como histérica, enquanto o homem firme é visto como assertivo”, observa.

Rio Piracicaba tem atualmente três mulheres entre os nove vereadores. Mesmo assim, Luna considera que ainda existem obstáculos para a participação feminina, entre eles a sobrecarga de responsabilidades e a falta de preparação política. “Não podemos sangrar em tanque de tubarões. Tenho minha identidade bem firmada e deixo para chorar em casa, mantendo a postura firme no debate”, declara.

Comunicação

A comunicação tornou-se uma das marcas do mandato. Luna utiliza as redes sociais para apresentar projetos, ouvir a população e tentar aproximar o Legislativo de um público que tradicionalmente acompanha pouco a política: os jovens.

Recentemente, por exemplo, abriu uma discussão no Instagram sobre a destinação das emendas impositivas municipais, que representam cerca de R$230 mil por vereador, perguntando aos moradores onde aplicariam os recursos. A estratégia é levar a discussão política para onde as pessoas estão. “Quero que as pessoas entendam que política não é algo distante. Ela interfere diretamente na vida delas”, afirmou, declarando ser essa a lógica que orienta sua atuação.

Um olhar para o Médio Piracicaba

A atuação de Luna também ganhou dimensão regional. Ela assumiu a presidência estadual da juventude do partido Republicanos e passou a defender maior articulação política entre os municípios do Médio Piracicaba. Para ela, uma região com mais de 600 mil habitantes precisa transformar seu peso populacional em força política. “Nossa região tem mais de 600 mil habitantes e enorme potencial. Precisamos de união para mostrar que estamos no mapa”, defende. A fala resume uma das principais bandeiras da jovem vereadora que é ocupar espaços e fazer com que novas vozes participem das decisões públicas. Confira a entrevista completa no canal do Youtube do A Notícia.