A mineração colocou São Gonçalo do Rio Abaixo entre os maiores em arrecadação de Minas Gerais. A cidade recebeu, recentemente, R$245,6 milhões de Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM). Hoje, ocupa a 8ª posição dentre os municípios com maior volume de royalties da mineração.
No entanto, apesar dos números, a atividade mineral não é considerada a única aposta para o futuro. Essa é a visão que orienta a política de desenvolvimento econômico do município, que vem utilizando parte dos recursos do minério para atrair empresas, gerar empregos e novas atividades econômicas.
O secretário municipal de Desenvolvimento Econômico do município, Gabriel Quintão, falou sobre projetos e ações desenvolvidas na cidade, ao quadro “Erivelton Braz Entrevista”, do A Notícia. “A mineração é apenas ponto de partida. Ela não pode ser destino final. Não podemos esperar seu fim para começar a pensar”, afirmou.
A estratégia, segundo Quintão, combina expansão industrial, qualificação profissional, incentivo ao empreendedorismo, inovação e planejamento. Até o fim de 2026, os novos empreendimentos anunciados devem representar cerca de R$300 milhões em investimentos privados.
Indústria
São Gonçalo possui quatro distritos industriais e está para abrir o quinto. O primeiro está com cerca de 80% de ocupação e o segundo já está totalmente ocupado, reunindo importantes empresas. O Distrito Industrial 3, às margens da BR-381, é uma das principais apostas, com mais de 400 mil metros quadrados de área útil. O quarto distrito está em construção e receberá a Frigo Hiper, indústria de carnes do grupo Comercial Monlevade que terá 30 mil metros quadrados e capacidade para abater diariamente 50 bois e 150 porcos, empregando dezenas de pessoas. Já o quinto, cuja área foi adquirida pela Prefeitura, passa por planejamento e definição do zoneamento.
Segundo Quintão, o município possui, atualmente, 30 indústrias em funcionamento ou em implantação nos distritos. Entre os principais investimentos está a Bionow, parceria pioneira entre Cenibra e Vale, com aporte de R$150 milhões. A unidade produzirá biocarbono a partir de eucalipto e deverá gerar 85 empregos diretos.
Agilidade
Para atrair empresas, a Prefeitura aposta na redução da burocracia. Segundo Gabriel, para tanto, foram traçadas algumas ações como a adesão à Rede Sim Mais Livre e a digitalização dos processos de licenciamento ambiental que agilizam a implantação de novos empreendimentos. Quintão cita a Tia Eliana como exemplo. Foram cerca de 120 dias entre a primeira reunião com a empresa e a conclusão das obras municipais de terraplanagem necessárias para a implantação da fábrica. “Tem uma premissa que diz que se o poder público não atrapalhar o empresário, ele já está ajudando. Além disso, ofertamos segurança jurídica, consultorias, planos de desenvolvimento para os negócios e desburocratização. Todas as ideias de negócios são bem-vindas”, afirma.
O município também utiliza o Plano Diretor para separar áreas residenciais, industriais e logísticas e evitar conflitos urbanos. A política de atração segue três frentes: buscar novos negócios, manter as empresas instaladas e fiscalizar as contrapartidas. “Quem recebe a concessão de um terreno público e incentivos fiscais tem que cumprir. Tem que gerar emprego, pagar os impostos em dia e cumprir o faturamento”, afirma Gabriel Quintão. Em 2025, 47 empresas de médio e grande porte procuraram São Gonçalo interessadas em se instalar. Porém, apenas cinco passaram pela pré-qualificação técnica.
Empregos
O desenvolvimento industrial é acompanhado por programas de qualificação e geração de oportunidades. Um deles é o Prospera Mais que reúne incentivos fiscais, oferta de áreas e linhas de microcrédito, como o Crédito Crescer. Já o Bolsa Trabalho subsidia parte do salário de trabalhadores contratados por empresas parceiras, que dão preferência à mão de obra local. O programa já abriu 39 oportunidades para jovens, em parceria com 15 empresas. A Prefeitura também mantém parceria com o Senai para cursos de formação conforme demanda das indústrias.
Inovação
A parceria com o Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) é outra frente da estratégia. A unidade de São Gonçalo funciona como um Parque Tecnológico Distribuído, aproximando poder público, academia e setor produtivo. O espaço desenvolve pesquisas em inteligência artificial e produtos de origem artesanal, além de oferecer cursos técnicos, qualificações e pós-graduações. O IFMG também apoia pequenos negócios por meio de coworking, pré-incubação e incubação. Atualmente, 33 empreendimentos recebem apoio. Em 2025, a Casa do Empreendedor atendeu 853 empresários e empreendedores.
Planejamento
Outra ação de destaque, segundo Gabriel, é a criação de um Observatório de Desenvolvimento Econômico e Social. A ferramenta acompanha indicadores e orienta as decisões da administração municipal. Segundo os dados apresentados por Quintão, o Caged, por exemplo, registrou, em maio de 2026, o maior estoque de empregos formais da iniciativa privada dos últimos 20 anos, desconsiderados os períodos de contratação temporária ligados à mineração.
O observatório também identificou pressão sobre o mercado imobiliário. Embora a cesta básica pesquisada tenha ficado em R$781,42, abaixo dos R$800,76 de Belo Horizonte, o custo da moradia permanece elevado. Os dados ajudaram a embasar um projeto de lei para construção de moradias populares na cidade.
Para a realização dessas ações, parte dos investimentos é financiada pela CFEM. A cidade tem registrado repasses que oscilam entre R$10 milhões a R$14 milhões por mês. Por exemplo, foram repassados R$13,4 milhões em janeiro de 2025 e R$11,6 milhões em março de 2026. O município destina 15% ao Fundo Municipal de Desenvolvimento Econômico, usado para a realização de atividades em prol da sociedade. “Não adianta ter dinheiro e não saber usar. Se somente ter recursos fosse sinônimo de desenvolvimento, todo município minerador era para ser referência”, afirma Quintão.
Visão regional
Para o secretário, a diversificação não deve ser pensada isoladamente. O desenvolvimento de São Gonçalo, afirma, fortalece todo o Médio Piracicaba. Para ele, João Monlevade contribui com universidades e mão de obra qualificada, enquanto os demais municípios possuem diferentes vocações econômicas, culturais, ambientais e agropecuárias. A articulação regional também passa pela Associação dos Municípios da Microrregião do Médio Rio Piracicaba (Amepi), que completou 40 anos e promove a campanha “Sou do Médio Piracicaba”. “Quando São Gonçalo desenvolve, desenvolve o Médio Piracicaba”, resume Quintão.
A entrevista pode ser acessada pelo endereço https://www.youtube.com/watch?v=wbb3gI2fskQ&t=1926s


