A Prefeitura de João Monlevade decretou luto oficial de três dias pelo falecimento do empresário Nicolau Alves Fernandes, ocorrido na quarta-feira (19). O Decreto nº 168/2026, assinado nesta quinta-feira (20) pelo prefeito Dr. Laércio Ribeiro (PT), reconhece a trajetória do empresário e sua contribuição para a história econômica, comunitária e cultural do município.

Durante o período de luto oficial, as bandeiras serão hasteadas a meio mastro. O decreto não altera o funcionamento dos serviços públicos municipais, que seguem normalmente.

O prefeito Laércio Ribeiro destacou o legado deixado pelo empresário e sua contribuição para João Monlevade. “Nicolau Alves Fernandes faz parte da história da nossa cidade. Sua trajetória foi marcada pelo empreendedorismo, pela participação ativa na vida comunitária e pelo compromisso com o desenvolvimento de João Monlevade. Ao decretarmos luto oficial, manifestamos o reconhecimento do município a um cidadão que contribuiu, em diferentes áreas, para a construção da nossa história. Em nome da Administração Municipal, expresso nossa solidariedade e nossas condolências aos familiares e amigos neste momento de despedida”, afirmou.

A vice-prefeita Dorinha Machado (MDB) ressaltou a dimensão humana da perda e as lembranças construídas ao longo da trajetória de Nicolau. “Há pessoas que ajudam a contar a história de uma cidade não apenas pelo trabalho que realizaram, mas pelas relações que construíram e pelas lembranças que deixaram na vida das pessoas. Seu Nicolau foi uma delas. Sua história está presente no desenvolvimento de João Monlevade, nas instituições das quais participou e também na memória afetiva de tantas famílias. Hoje nos despedimos com tristeza, mas também com gratidão por tudo o que ele representou para nossa cidade. Meu carinho e minha solidariedade a toda a família e aos amigos”, declarou Dorinha.

Além de determinar o luto oficial, o decreto manifesta formalmente as condolências da Administração Municipal aos familiares e amigos de Nicolau Alves Fernandes. O Decreto nº 168/2026 entrou em vigor nesta quinta-feira (20).

Confira a trajetória de Nicolau Fernandes, uma das grandes personalidades da história de João Monlevade:

Nicolau Alves Fernandes, uma das personalidades mais marcantes da história de João Monlevade. Nascido em Ponte Nova, em 31 de agosto de 1926, ele se mudou com a família para o município em 1932 e construiu, ao longo de décadas, uma trajetória ligada ao empreendedorismo, ao associativismo e a iniciativas de interesse comunitário. Ele completaria 100 anos no fim deste mês.

Casado com Maria das Dores Guimarães Fernandes em 1952, Nicolau teve seis filhos e 14 netos. Ficou viúvo em 1990. Há décadas, vivia na companhia de Ana Maria Terrola de Menezes. Desde a infância, participou da vida da então jovem comunidade monlevadense. Trabalhou como vendedor de pães, jornaleiro, engraxate, carregador de malas na estação e vendedor de balas em cinema. Aos 10 anos, integrou o primeiro grupo de escoteiros de João Monlevade. Na infância e começo da adolescência, acompanhou o surgimento da então Companhia Belgo-Mineira (CSBM) e trabalhou na preparação dos terrenos onde a indústria seria instalada.

Em 1943, ingressou na empresa, na seção de Carpintaria, como modelador. A experiência contribuiu para que, anos depois, deixasse a usina e passasse a empreender. Em 1950, criou a Fábrica de Móveis São José Ltda. e uma serraria.

Do cinema à modernização da cidade

Uma das marcas de sua trajetória foi a ligação com o Cine São Geraldo, em Carneirinhos. Ao lado de sócios, como o advogado Onofre Francisco de Oliveira, Nicolau projetou e construiu o prédio do cinema, entre 1961 e 1963. Depois da inauguração, assumiu a gerência por 15 anos, período em que promoveu atividades culturais e sociais para a população monlevadense.

Também teve participação em iniciativas relacionadas à formação da infraestrutura urbana da cidade que se modernizava. Durante o processo de emancipação de João Monlevade, auxiliou o intendente Bolívar na indicação de locais para a construção das redes fluviais da Avenida Getúlio Vargas e orientou a execução das obras. Também apresentou sugestões para a construção da antiga praça do cinema, posteriormente, denominada Praça João Alves Fernandes, em homenagem a seu pai.

Em 1967, atuou junto ao Governo de Minas para viabilizar a instalação da primeira agência bancária no bairro de Carneirinhos, o Banco Mineiro da Produção, que posteriormente se tornou BEMGE e, mais tarde, Itaú.

Associação Comercial

A história de Nicolau se confunde também com a da Associação Comercial e Industrial de João Monlevade (Acimon). Em 1964, ele integrou a comissão responsável pela construção da sede da entidade e dirigiu os trabalhos de construção do prédio, na rua Floresta. A partir daí, manteve participação ativa na associação, chegando à presidência no biênio 1987/1989 e ocupando a vice-presidência em diferentes gestões.

Durante sua gestão, promoveu feiras destinadas a apresentar a municípios do Médio Piracicaba produtos e serviços oferecidos por empresas de João Monlevade. A iniciativa, segundo o próprio Nicolau, ajudou a mostrar o potencial econômico da cidade e contribuiu para consolidar a visão de Monlevade como polo regional.

Foi também durante sua passagem pela presidência da Acimon que Nicolau participou da mobilização pela elevação da Comarca de João Monlevade à categoria final. O trabalho envolveu articulação com lideranças políticas municipais e estaduais e a elaboração de um relatório pela associação. A iniciativa resultou na publicação da Lei 9.548, de 5 de janeiro de 1988.

Anos depois, como vice-presidente da entidade, participou ativamente das articulações para a implantação da Incubadora de Empresas. Também representou a entidade na comissão responsável pelas discussões sobre o Distrito Industrial e no Conselho Municipal de Defesa e Conservação do Meio Ambiente (Codema).

Por ocasião das comemorações dos 50 anos da Acimon, em 2014, Sô Nicolau deixou registrado um depoimento sobre sua relação com a entidade. “Em 1964, como membro da comissão, dirigi os trabalhos de construção do prédio da Acimon. A partir dessa data, tenho atuado como membro da mesma, assumindo cargos e funções até a presente data”, escreveu.

Ainda no texto, ao falar sobre os 50 anos da associação, Nicolau Fernandes resumiu a importância que atribuía ao associativismo. “Comemorar 50 anos da Acimon é validar o trabalho sério, comprometido e eficaz da entidade que tem sua história escrita por empreendedores proativos, capazes de buscar o desenvolvimento amplo para os associados sem perder, contudo, o foco na importância da atuação da entidade na vida econômica, social e política de Monlevade e da região”.

Empresário e liderança comunitária

A atuação de Nicolau ultrapassou o ambiente empresarial. Em 1968, presidiu a comissão pró-construção do Hospital São Vicente de Paula, iniciativa que envolveu projeto, doação de terreno e materiais, embora o empreendimento tenha sido inviabilizado por questões políticas. Em 1969, fundou a Socintra Ltda., indústria de pré-moldados de concreto da qual foi sócio proprietário.

Na educação, participou durante anos da Fundação Educacional de João Monlevade e, posteriormente, da Fundação Comunitária Educacional e Cultural de João Monlevade (Funcec). Também colaborou na captação de recursos para a formação de acervo destinado ao curso de Direito.

No Lions Clube João Monlevade Centro, onde ingressou em 1979, exerceu a presidência em duas gestões. Também participou de articulações envolvendo clubes de serviço, entidades e poder público para a reforma do antigo Fórum e implantação da 2ª Vara Cível da Comarca.

Em 1993, apresentou à Prefeitura o projeto para construção de uma pista de caminhada. A proposta foi aprovada e Nicolau liderou a mobilização de clubes de serviço, empresas e do próprio município para a construção da ciclovia, com 2,5 quilômetros de extensão.

A solidariedade também esteve presente em sua trajetória. Durante mais de uma década, transformou as comemorações de aniversário em oportunidades para arrecadar e destinar doações a instituições como o Hospital Margarida, a Sociedade São Vicente de Paula e o Centro de Reabilitação Gileade.

Reconhecimento

Em 1994, recebeu da Câmara Municipal o título de Cidadão Honorário de João Monlevade. Por duas vezes, recebeu o Troféu Araponga, promoção do Jornal A Notícia, em 1985 e 1990. Também recebeu o Troféu: 10 Anos do Jornal, em 1994, como Destaque Comunitário. Em 2011, a Acimon lhe concedeu o Mérito Jean Antoine Félix Dissandes de Monlevade. A entidade também lhe entregou o título de primeiro Presidente Benemérito e batizou o auditório da associação com seu nome. Ainda em 2011, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais o homenageou com a Medalha Desembargador Hélio Costa.

A vida de Nicolau Alves Fernandes se encerra a poucos dias de seu centenário. No entanto, sua história e trajetória deixa registros em diferentes momentos da formação de João Monlevade. Empresário, dirigente de classe empresarial e liderança comunitária, ele participou de iniciativas que atravessaram a economia, a cultura, a educação, a infraestrutura e a assistência social, mantendo como característica a defesa do desenvolvimento de João Monlevade e região.