Durante décadas, o Médio Piracicaba construiu sua identidade econômica sobre a mineração e a siderurgia. A riqueza produzida pelo minério impulsionou arrecadações, transformou cidades e consolidou a região entre as mais importantes do setor mineral brasileiro. Ao mesmo tempo, esse modelo trouxe um desafio cada vez mais evidente: como garantir prosperidade quando a economia depende fortemente de uma única atividade?

Essa é a questão central que orienta o trabalho da Agência de Inovação e Desenvolvimento Regional Sustentável do Médio Piracicaba (Agir) e do Plano Regional de Desenvolvimento elaborado para o território. Segundo o presidente da Agir e diretor do plano, Eugênio Müller, a região vive o chamado “Paradoxo da Abundância”. Conforme explica, a região é um território economicamente rico no presente, mas que convive com vulnerabilidades estruturais que ameaçam sua sustentabilidade no longo prazo. “O desafio do Médio Piracicaba não é a falta de riqueza, mas a dificuldade histórica de transformar essa riqueza em desenvolvimento duradouro e distribuído pelo território”, afirma Müller.

Entre os desafios identificados estão a forte dependência da mineração e da siderurgia, a baixa diversificação produtiva, as pressões ambientais, a desigualdade socioeconômica e o risco fiscal enfrentado por municípios altamente dependentes dos royalties da mineração.
Para a Agir, a solução não passa pelo abandono da atividade mineral, mas pela transformação da mineração em alavanca para uma nova matriz econômica. “A mineração e a siderurgia continuarão sendo fundamentais para a região. O que buscamos é fazer com que deixem de ser praticamente os únicos motores do desenvolvimento regional”, explica Müller.

Perfis da região

O estudo da Agir identificou três grandes perfis econômicos no Médio Piracicaba. De um lado estão os municípios mineradores, com forte dependência da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM). Em outro grupo aparecem João Monlevade e Bela Vista de Minas, com destaque para a indústria siderúrgica e metalmecânica e para a centralidade regional exercida por João Monlevade em áreas como saúde, educação e serviços. Já cidades como Alvinópolis, São Domingos do Prata, Rio Piracicaba e Nova Era apresentam maior presença da agropecuária, do comércio e de pequenas indústrias.

Desenvolvimento sustentável

A principal aposta para promover essa transformação é a criação do Polo de Bioeconomia do Médio Piracicaba, o PoloBio, concebido como um ambiente integrado de inovação, empreendedorismo e desenvolvimento sustentável. A proposta adota um conceito ampliado de bioeconomia, envolvendo transição mineral sustentável, reaproveitamento de rejeitos da mineração, nova industrialização verde, agronegócio, turismo, gastronomia e valorização da identidade territorial. “Temos a convicção de que a verdadeira virada de chave para o futuro do território está na bioeconomia. Mas esse processo depende da união entre empresas, universidades, poder público e sociedade”, afirma Müller.

Uma das vertentes do projeto envolve o reaproveitamento dos rejeitos da mineração, transformando um passivo ambiental em oportunidade econômica. Esses materiais podem ser utilizados na construção civil, na fabricação de pré-moldados, pavimentação, produção de vidros, cerâmicas e diversos outros produtos industriais.

Segundo Müller, apenas em Itabira existe potencial para reaproveitar cerca de 10 milhões de toneladas anuais de rejeito arenoso, volume equivalente a aproximadamente 13% da produção formal de areia do Brasil. A proposta prevê ainda a implantação de um parque industrial baseado na economia circular e a criação de um Centro Regional de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Reaproveitamento de Rejeitos Minerais, reunindo universidades, mineradoras e setor produtivo.

Além da indústria, o plano aposta no fortalecimento da produção rural, na agroindustrialização, no turismo e na economia da experiência. Entre as estratégias estão a valorização de produtos tradicionais, certificações de origem, assistência técnica e ampliação do acesso ao mercado para pequenos e médios produtores.

Para Eugênio Müller, trata-se de uma oportunidade histórica para a região. “Estamos apenas no início de um processo de transformação, mas acreditamos que o Médio Piracicaba possui todas as condições para se tornar referência nacional em desenvolvimento sustentável e inovação regional, construindo uma economia mais diversificada, resiliente e preparada para o futuro”, conclui. Segundo Müller, em até 30 dias, deve ocorrer o reconhecimento formal pelo Legislativo e Executivo Estadual do Polo.