Cerca de 13 mil formandos de Medicina em todo o Brasil estavam matriculados em cursos avaliados como de qualidade insuficiente ou crítica. A informação é do Conselho Federal de Medicina (CFM) e se baseia nos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, divulgados nesta semana, pelo Ministério da Educação (MEC).

Segundo o conselho, esse número representa cerca de três entre cada dez estudantes do último semestre dos cursos superiores de Medicina em todo o  país. Conforme apresentado pelo CFM, baseando-se nos resultados do Enamed, dos 39.256 concluintes de medicina que participaram da prova, 13.871 estão se formando em faculdades com conceitos 1 e 2, ou seja, abaixo da nota mínima aceitável pela própria metodologia adotada pelo MEC.

Entre as instituições com melhor desempenho, destacam-se as universidades públicas estaduais: nenhuma obteve conceito na faixa 1 e 46,2% alcançaram a nota máxima (5). Nas instituições públicas federais, 26,3% dos cursos ficaram na faixa 5. Já as instituições privadas com fins lucrativos apresentaram os piores resultados, com 11,5% dos cursos na faixa 1 e apenas 2,7% na faixa 5. Em Minas Gerais, as melhores universidades foram a  Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP); Universidade Federal de Uberlândia (UFU); Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES).

“Problema estrutural gravíssimo”

Para o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), José Hiran Gallo, os números confirmam um alerta inequívoco que a autarquia vem fazendo sobre a formação médica no Brasil: “Quando mais de um terço dos egressos de Medicina obtêm desempenho considerado insuficiente pelo próprio MEC, estamos diante de um problema estrutural gravíssimo. São mais de 13 mil graduados em medicina que receberão diploma e registro para atender a população sem terem competências mínimas para exercer a medicina. Isso é assustador e coloca em risco a saúde e a segurança de milhões de brasileiros”.

Na visão do Conselho Federal de Medicina, o resultado do Enamed mostra que a expansão acelerada de cursos, especialmente no setor privado, não foi acompanhada de critérios mínimos de qualidade, infraestrutura e campo de prática adequados.

De acordo com o presidente do conselho, “o Enamed cumpre seu papel ao tornar visível uma realidade que o CFM denuncia há mais de 10 anos: a má qualidade do ensino médico vinculada à abertura indiscriminada e desqualificada de escolas sob autorização do MEC. 96% da população brasileira reconhece a necessidade e é absolutamente necessário que o Congresso Nacional aprove o Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed), que será obrigatório para concessão do registro aos novos médicos. É responsabilidade dos Conselhos de Medicina fiscalizar a atividade médica no Brasil e isso precisa ocorrer desde a concessão do registro, pois, temos que garantir que apenas profissionais capacitados se tornem médicos – fato que hoje, infelizmente, não é possível garantir”,

Os resultados divulgados mostram que o MEC reconhece que 107 faculdades de medicina possuem nível crítico e insuficiente quando se trata da qualidade do ensino e outras 80 escolas atingem apenas critérios minimamente aceitáveis. Entre as escolas notas 1 e 2, São Paulo lidera o ranking, considerando números absolutos, com 23 cursos e 3.437 estudantes de medicina concluindo-os. A Bahia aparece em segundo lugar, com 12 cursos e 1.396 alunos, seguida de Minas Gerais, que teve 12 cursos e 1.307 estudantes, e do Rio de Janeiro, com 10 cursos e 1.353 concluintes.

O CFM defende que, “para segurança da população, todos os cursos de medicina em funcionamento no País tenham, no mínimo, nota 4 o que significa que, pelo menos, 75% de seus alunos obtiveram um Bom Desempenho, segundo conceito definido pela metodologia do MEC”.

Punições

Segundo o ministro da Educação, Camilo Santana, 54 cursos de Medicina deverão reduzir o número de vagas. Dentre esses cursos, oito estão impedidos de realizar novos ingressos no segundo semestre deste ano, por terem obtido nota 1 no exame, com a maioria dos estudantes apresentando percentual de proficiência inferior a 30%. Outras 13 instituições precisarão reduzir em 50% o número de vagas, enquanto 33 terão redução de 25%, como forma de tentar melhorar o desempenho na próxima edição da avaliação.