Desde 1984
Mário Ananias
02 de Fevereiro de 2024
Carnaval: Daqui não saio

Trago a memória vívida dos carnavais de minha infância, citada no livro Sobre Viver Com Pólio. Tantas carências, financeiras e anatômicas, não reduziram o gosto pela festa. Com o passar do tempo e a diversificação das opções, surgiu uma distinção clara entre o que se queria e o que se poderia fruir.
Chegamos a BH em 75, vindos de Monlevade, onde minha família havia fincado raízes há trinta anos. Ficaram para trás as referências dos carnavais de clubes e também dos desfiles comandados pelo saudoso Zé Liga, pelas ruas de lá. 
Nesse ano, outra mudança importante acontecia na capital mineira: o fim do histórico bloco carnavalesco “Leões da Lagoinha” dava à luz a espetacular “Banda Mole”, fundada por ex-integrantes, como o saudoso jornalista e cartunista Son Salvador, que virou anjo, em 2019; Jacaré (Luiz Mário Ladeira) e Gaiola (Helvécio Trotta), que foi animar o carnaval celeste em 2021.
Mesmo com grande dificuldade para acompanhar, subindo a Bahia, que é ladeira em quase toda a extensão, valia a pena curtir a festa ao som da “Banda do Bororó”, e toda aquela euforia, sem violência nem trios elétricos, em clima de descontração, fantasias caricaturizadas, brincadeiras e muita diversão. 
Minha juventude, então, gritava, ou talvez cantasse, bem mais alto que minha condição PcD e abriu uma oportunidade fantástica de me perceber integrado, entre tantas fantasias, entre tantas alegrias.
As músicas eram marchinhas, frevos e sambas populares, sem exigir que os passos fossem certinhos, as fantasias sofisticadas, a voz afinada ou o acerto das letras. Tempo de liberdade e respeito, pouco policiamento e nenhuma câmera de segurança. Não eram itens importantes.  
Como o Chico bem expressou em “Valsinha”, a libido em alta e os hormônios em clima de samba-enredo exaltavam a imaginação: “... e foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos, como não se ouvia mais...”.
Um dos pontos altos, bem perceptíveis, era que muita gente, no trajeto, fazia grande esforço para imitar meus passos se embriagando e, só então, conseguiam “cambalear” como eu fazia sem beber uma única gota de álcool. Era hilário.
A Banda Mole se concentrava no começo da Bahia, na praça Professor Alberto Deodato, em frente ao belo prédio do Cine Metrópoles, hoje um banco, na confluência das ruas Goitacazes e Goiás. Na subida, após alguns quarteirões, à direita, fica a Basílica de Nossa Senhora de Lourdes. Para mim, um ponto de repor energias. O cortejo fazia pequenas paradas antes, mas eu me adiantava para descansar e aguardar a chegada da banda. Com boa memória, sabia praticamente todas as letras. Cantava a plenos pulmões, recostado feliz e sorridente ao gradil da igreja.
Certa vez, veio em minha direção, uma moça linda, sem maquiagem, com um short cinza e uma blusa decotada com listas verticais em verde e branco, como a sua mínima sombrinha, e um sorriso adorável. Simpática, perguntou como eu sabia todas as músicas: ela esteve me observando. Sem uma resposta direta, elogiei o fato de ela dançar divinamente o frevo. Nos apresentamos com três beijos, dois no rosto e o terceiro... ah! Quanta saudade daquele tempo. Deve ter sido outro milagre, pois estávamos diante de uma igreja e a música que a banda tocava, já se aproximando, era “Daqui não saio”, de Paquito e Romeu Gentil, de 1949.

 

(*) Mário Ananias é monlevadense, servidor público, escritor, palestrante e autor do livro: Sobre Viver com Pólio. Contato: mariosrananias.com.br/ @mariosrananias