Desde 1984
() Joaquim Teixeira
13 de Maio de 2022
Minha chegada ao céu

Era uma manhã de sábado, dia seguinte em que recebi homenagens do Rotary Club em jantar festivo no restaurante Bonanza quando fiquei muito orgulhoso, engrandecido, envaidecido e não sei mais o que, e agora estava indo de carro para BH, sozinho. Não liguei o rádio como já tenho feito ultimamente. Fui pensando na imensidão das obras de Deus. Pensei no nosso Planeta Terra. Meditei sobre esse gigantesco Universo sem fim, com bilhões de Galáxias em eterno movimento, e cada Galáxia com bilhões de estrelas, o que está acima de nossa humana compreensão. Fui meditando profundamente em tudo isso e na Grandeza Divina, pensei no que somos no objetivo do porque estamos aqui, dos nossos feitos, das ações que deveríamos fazer em benefício do próximo. Houve momentos em que fiquei bastante emocionado nas profundas coisas em que pensava enquanto dirigia com os olhos úmidos. Quase uma hora e meia havia passado e eu me surpreendi meditando no seguinte: Depois da nossa morte física, ao chegar no céu, por certo ocorrerá o seguinte diálogo: 

- “Quem é você e o que fez no planeta terra?”.

- Há, eu sou o Joaquim. Fiz muitas coisas. Até dei ajudas para algumas pessoas. Fui fundador da Escola de Pais em minha cidade e saía muitas vezes a noite a bairros periféricos com minha esposa, durante alguns anos, para falar sobre temas diversos referentes à educação de filhos. Fui diretor de clubes sociais e presidente de um deles, construí restaurante, piscinas, quadra de esportes, ginásio coberto. Fui honesto trabalhador na Cia Siderúrgica Belgo Mineira. Fundador do Rotary Club numa cidade de Minas chamada João Monlevade. Muitas vezes ajudei a Casa da Amizade a distribuir cestas básicas no verão e agasalhos no inverno. Fui secretário, protocolo, presidente e outras coisas mais.

Também me considero Astrônomo, embora amador. Estudei muita astronomia, possuindo 2 telescópios, um muito grande e motorizado. Fiz muitas observações astronômicas nas Praças Públicas com enormes filas, e dei palestras em 80% das escolas primárias, nos colégios e 3 faculdades locais. Meu ego me diz que fui importante. Sou cristão e estava participando de reuniões semanais para aprender a ler e interpretar o evangelho quando o corpo já não mais me serviu, e aqui estou.

- Muito bem. Mas, foi só isso? O que mais você fez? “Ora, creio isso ser bastante importante”.

- É. Mas isso que você disse que foi e fez, já sabemos e você foi “PAGO”, já foi recompensado, homenageado, etc. Você ficava muitas vezes envaidecido porque fazia e recebia em troca. Veja quantas vezes você foi elogiado, e abraçado. Recebeu placas de bronze, medalhas, jantares e inúmeros diplomas de honra ao mérito, teve músicas, recebeu troféu, homenagens de sócio 100% e 1.000%. Recebeu encomenda, distintivo e diploma de Companheiro Paul Harris. Teve muitas fotos, cumprimentos dos amigos, companheiros e coisas mais. Portanto, você fez algumas coisas sim, mas já recebeu muito em troca. Nós queremos saber o que mais você fez fora isso aí:

- O que você fez dos filhos que Deus te deu não para criar, mas para educar, encaminhar na vida, orientar?

- Quantas vezes você visitou cadeias públicas para levar uma palavra de consolo e esperança para os detentos?

- Quantas vezes você visitou doentes em hospitais ou residências, para uma palavra de amor e carinho?

- Quantas vezes você visitou o Asilo da cidade para dar amor aos velhinhos, muitos deles abandonados?

- Quantas vezes você se preocupou com seus semelhantes, mesmo desconhecidos, nos infortúnios e tristezas?

- Quantas vezes, você no trabalho, em cursos ou reuniões, pensou no aniversário do amigo, um telefonema?

- Quantas vezes você demonstrou compreensão, humildade, paciência, capacidade para perdoar?

- Quantas vezes, você foi sensível e teve a coragem de gastar um pouquinho do seu tempo e conversar com um mendigo sujo e maltrapilho, puxar conversa com ele, saber quem ele é, sem querer interrogá-lo, apenas ouvi-lo, saber sobre ele?

- Quantas vezes...? - Quantas vezes...? - Quantas vezes... 

- Depois dessa, coloquei a minha barba de molho e deixei a mochila no jeito para um novo retorno. Aprender mais. Essa é a vida. 

ESSE ESCRITO foi há quase 24 anos, publicado no número 154 do Boletim do Rotay Club de João Monlevade, em 26 de setembro de 1998. Quem me conhece sabe que faço tudo isso e muito mais.


(*) Joaquim Teixeira é aposentado, redator do Boletim do Rotary