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Wir Caetano
06 de Maio de 2022
“Conexões monlevadenses”

Canções que a mãe cantava para a filha acabaram se tornando material de pesquisa da menina ao virar adulta, em sua trajetória como mestre e doutoranda em música pela Unicamp. A antiga criança é hoje a professora e pesquisadora Lucilene Silva, monlevadense que mora em Carapicuíba (SP) e garimpou tradições musicais do universo infantil em mais de 150 municípios do país, além da América Latina e da Europa. Ela foi uma das quatro pessoas convidadas para o bate-papo do projeto “Conexões Monlevadenses”, que foi ao ar no dia 27 de abril no canal do Youtube da Fundação Casa de Cultura.

Já a história de Renato Milani envolve uma avó que, em vez de simplesmente contar historinhas ao neto, contava “histórias de teatro”, teatralizava as fantasias. Suas raízes o levaram a se profissionalizar no meio teatral, como ator, diretor e produtor em Belo Horizonte, onde vive. Além disso, dá aulas de teatro em Contagem. “Antes da cultura, precisamos de identidade cultural”, disse ele na live, mediada por Nadja Lírio, diretora-presidente da Casa de Cultura. 

Revelações

Um céu que uma greve revelou. Foi o que contou o designer gráfico, ilustrador e poeta Rômulo Garcias, morador de BH há quase 40 anos. Referindo-se à cidade metalúrgica, João Monlevade, onde todos os caminhos pareciam levar às fábricas e não a outras vias, ele citou a greve como que a sugerir uma ruptura. Foi preciso, um dia, operários pararem para dar uma pausa na fumaça fabril, e o céu aparecer. “Precisamos criar lugares”, sentenciou o desenhista, que desenhava na capa dos talões de cheques que uma empreiteira usava para pagar os empregados. 

“Tudo começou ali, na rua Pará, no bairro Satélite. Tinha uma família abaixo da rua Pará que ‘fazia’ Congado”, contou Toni Júlio, com décadas e décadas de vida em Milão, na Itália e, como Lucilene, ex-cantor do Coral Monlevade. Na cidade onde vive, não deixa de participar do arrastão para Iemanjá em que a maioria dos participantes são italianos. A experiência fora do país mostrou a ele que os brasileiros precisam valorizar mais sua cultura. Toni chegou a receber um prêmio internacional pela divulgação de música brasileira na Europa.

Além do normal

Os quatro monlevadenses deixaram claro nessa live da Fundação Casa de Cultura – um dos muitos eventos integrantes da programação comemorativa dos 58 anos de João Monlevade -, que é preciso desafiar “normalidades”, posturas que se cristalizam e levam à acomodação. Há muitas conexões possíveis e tais conexões passam pela cidade e vão além dela. 

Estejamos atentos a esses nossos conterrâneos que são também nossos contemporâneos no sentido que o filósofo italiano Giorgio Agamben dá a esse termo – tema de que tratei em outro artigo neste espaço. Segundo ele, pertencer ao seu tempo – e cabe acrescentar: ao seu lugar – implica um tanto de desajuste, de deslocamento. Só assim podemos ir além da mera adequação ao “andar da carruagem”. “Criemos lugares!”. E tenhamos ouvidos atentos ao que está à nossa volta. A música dos ancestrais, a voz dos ancestrais, de que falaram Lucilene, Renato, Toni, Rômulo.

Outras edições do “Conexões Monlevadenses” virão, o que significa que teremos novas oportunidades de nos conectarmos com outras histórias, e histórias são como portas e janelas. 

Conectemo-nos!


(*) Wir Caetano, servidor público municipal, é jornalista, fotógrafo e letrista de música