Desde 1984
() Thiago Silva
14 de Janeiro de 2022
Em 2022, olhe pelo Estado

Influenza, Delta, Omicron, Deltacron e chuva, muita chuva: 2022 já demonstra que não será fácil. Anos de Copa do Mundo e de eleições possuíam um primeiro semestre de união em torno da seleção seguido por intensa disputa política. Em 22, as eleições prometem roubar a cena. Para piorar, o símbolo da seleção ganhou conotação política e alguém ainda teve a ideia de realizar a Copa em dezembro. Temo que não haja tempo de unir o país.

No final, 2021 apresentou um sucesso cinematográfico: “Não olhe para cima”. Filme caro, com atores do primeiro time de Hollywood, mas que, em minha opinião, traz uma narrativa morna, rasa e dizendo o óbvio de forma muito mais fiel à realidade que eu gostaria para uma comédia distópica. Que se pese a minha indignação com o fato do sistema vigente ser capaz de tornar um sucesso comercial a exposição de suas falhas sem que isso o abale de alguma forma, diria que o filme foi necessário. Na centralidade da narrativa, o governo se apropria do aparato estatal para atender interesses privados. 

Portanto, pego a deixa de 2021 para trazer para 2022 a discussão sobre a importância do Estado. Diferenciar Estado e Governo neste contexto é importante. De forma simplificada, o Governo é gestão feita pela classe política do aparato estatal e Estado são as instituições públicas com sua infraestrutura, suas regras, suas missões e seus servidores. O Governo pode, inclusive, destruir (ou diminuir, se assim preferir) o Estado. Exemplo local é a situação do DAE. Foram anos de sucateamento que resultaram no cenário caótico que vivenciamos. 

Infelizmente, a população geralmente confunde os dois e ataca o Estado por descontentamento com o(s) governo(s). O funcionário público é, constantemente, vítima dessa confusão. No imaginário popular, todo servidor possui inúmeros privilégios. Porém, isso só é verdade para uma ínfima parcela do poder judiciário, dos militares e para classe política, esses últimos que são parte do governo, não do Estado. A maioria dos servidores públicos são professores, enfermeiros, médicos e policiais. Profissionais que diariamente lutam contra a falta de estrutura para entregar à população um serviço de qualidade.  

Enquanto o indivíduo, ou o privado, visa o lucro, o Estado existe para atender às demandas coletivas. Sem Estado, não há quem trabalhe visando o bem estar social, quem garanta atendimento onde não há lucro. A má notícia é que, sem recursos, o Estado não consegue atuar. Pedem a redução do Estado mas reclamam quando recebem o serviço mínimo, de um estado mínimo, desnutrido, sucateado. E a corrupção? Existe. Mas não é exclusividade do serviço público. Pelo contrário, diria que está mais relacionada aos governos e aos interesses privados que os financiam. Lembram de Peter Isherwell?

Até para combater a corrupção é necessário um estado forte. No dia a dia, a infraestrutura estatal é capaz de garantir o fornecimento de combustível a um preço justo, de combater a pandemia (já agradeceu ao SUS hoje?), de fomentar o desenvolvimento econômico e/ou de prestar assistência adequada aos atingidos por tragédias, por exemplo. A máquina pública precisa funcionar e ser bem gerida para que o estado possa ser capaz de servir a população nos desafios dos tempos atuais. Em outubro, olhe ao seu redor. Defenda o que é nosso, defenda o Estado.


(*) Thiago Silva é doutor em Engenharia de Produção, servidor público federal e atualmente diretor do Instituto de Ciências Exatas e Aplicadas da Ufop