Desde 1984
Niel Flávio
07 de Janeiro de 2022
Resgate da memória monlevadense

Dois projetos que integram o Laboratório de Pesquisa e Investigação Cênica foram aprovados no edital municipal da Lei Aldir Blanc promovido pela Prefeitura de João Monlevade através da Casa de Cultura. O primeiro, assino a direção e realizo o trabalho junto à atriz pesquisadora Andréa Abade; o laboratório está nos permitindo conhecer mais da negritude monlevadense desde os escravizados (que pouco são citados nas referências históricas da criação do município) até os dias de hoje; O ponto de partida foi conhecer a história da Dona Preta, mulher negra e primeira doméstica eleita vereadora no país e que foi de grande destaque para história política e social monlevadense. 

A ideia é que a continuidade na pesquisa nos permita criar um espetáculo teatral que tenha como fio condutor essas histórias. O outro trabalho realizado é um áudio drama em que assino a criação dramatúrgica e atuação. E tem como referência, memórias de infância e alguns questionamentos do que é ser monlevadense. “Você me conhece? Eu tenho Sotaque?”; “Trem azul”, “Cavalos do Asfalto ” e um jogo de cena com o próprio hino da cidade fazem parte da dramaturgia. Utilizar da arte para gerar reflexão sempre esteve em meus trabalhos ainda mais quando se trata do local onde me formei como ser-humano. 

A pesquisa é uma continuidade da que já executo dentro da universidade que é sobre ficção e autobiografia na cena. O bate-papo sobre Dona Preta e o áudio drama denominado “Não Há Vazio sem Memória” estão disponíveis no YouTube, Spotify e presentes nas redes sociais da Associação Acordar Cultural (@acordarcultural). O setor cultural, nessa pandemia, teve que se reinventar em um momento que, por questões de saúde, tivemos que pausar as aglomerações e encontrar no virtual, novos modos de realizar nosso trabalho, com o teatro não foi diferente. 

Torço para que em breve possamos levar esses trabalhos para o presencial. Foi muito importante enquanto artista poder executar esses projetos na cidade e contar com a sensibilidade da atual gestão da Prefeitura e Casa de Cultura, que permitiu através dos editais garantir renda para executar um projeto que visa entre outras coisas o resgate da história de nossa cidade. O povo que conhece sua história não é vazio. 

A Lei Aldir Blanc socorreu em todo o país milhares de artistas e suas famílias, em Monlevade cerca de R$560 mil foram investidos. Recurso que possibilitou colocar comida e a continuidade do trabalho cultural em um setor que ainda está com muitas dificuldades de retorno. Sou muito grato a lei e a toda mobilização que fizemos em 2020 para que ela se tornasse realidade em João Monlevade. 


(*) Niel Flávio é ator, ativista, produtor e gestor cultural. Gradua Teatro na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)