Desde 1984
Marcos Martino
07 de Janeiro de 2022
Hipocrisia nossa de cada dia

É muito difícil admitirmos o mal em nós, admitirmos que muitas vezes fazemos o que recriminamos nos outros...e sem culpa, naturalizando as coisas. Vou usar um pouco minhas observações sobre a 381 como referenciais. Dia desses vi um vídeo, em que guardas de trânsito paravam pessoas que estavam usando smartphone enquanto dirigiam. Os abordados já iam parando e dizendo: - já sei, eu fui flagrado usando celular, não é isso? Ô seu guarda. Alivia aí. Nesse instante o guarda não multava, mas fazia uma abordagem interessante. 

Convidava os motoristas a assistirem alguns vídeos, que mostravam testemunhos de pessoas que perderam entes queridos ou se acidentaram por causa dos celulares. Algumas pessoas chegavam a se emocionar, a chorar. E, depois, juravam para os guardas que nunca mais iriam conversar ao celular enquanto dirigiam. Mas sinceramente: dá pra acreditar? É claro que não. 

Se tocar o celular a maioria vai atender. Provavelmente, até você que está lendo. Somos hipócritas até com os radares. Os motoristas seguem suas viagens e passam pelos pardaizinhos a 60 kms. No minuto seguinte colocam 160 no ponteiro pra compensar e ultrapassar uma fila de carretas e veículos lentos.... e com faixa contínua. Mas não tem problema. Ninguém vai ver mesmo. Tem fiscalização só no radar, depois é free...velozes, furiosos e defuntos. E tem a lei que estabelece que é proibido dirigir alcoolizado. Mas tem gente que discorda. Isso é só pra quem fica bêbado à toa. A maioria arrisca tomar uma e dirigir. O que é que tem? Se os bares na BR vendem é porque a gente pode beber. O que é uma hipocrisia daquelas também. Se o guarda pegar, a gente tenta enrolar, diz que não bebeu, mas não vai soprar bafômetro...e se não colar, uma boa gorjeta pode resolver. O guarda também é filho de Deus e também merece tomar uma. Ele finge que não viu, a gente finge que tá sóbrio e todos ficam felizes. Se alguém morrer, culpa da BR assassina.

E, para completar, tem o governo federal. Há décadas finge que vai duplicar a BR, lança dezenas de editais, adia inúmeras vezes e vai lotando cemitérios. Os nobres políticos, reis da hipocrisia aparecem, prometem de novo que vão duplicar, máquinas povoam a pista, eles ganham uns votinhos e desaparecem, até o próximo pleito.

São mentirinhas que contamos para os outros e para nós mesmos. Fingimos amar a verdade, mas praticamos a mentira. Mentirinhas táticas. Quem leu o livro Autoengano do Eduardo Gianetti sabe do que estou falando. Tem aquela frase...'aos amigos tudo, aos inimigos o rigor da lei'. Muitos se consideram acima da lei, com licença pra fazer qualquer coisa. E tem aqueles que gostam de ser enganados. Tem aquela letra de pagode, 'me engana que eu gosto”. E não é à toa que a Marília Mendonça fez tanto sucesso com suas canções de sofrência. As pessoas parecem mesmo gostar de serem chifradas. Prova disso é que continuam elegendo os de sempre e perpetuando a hipocrisia pública.

Existe algum jeito de combater essa hipocrisia? Sim. A vigília radical e a tolerância zero. Mas sabe quando teremos isso? Nunca. Sabem por que? Porque não existe verdadeiramente essa vontade. Portanto, a letra de música que devemos mesmo considerar é 'só peço a Deus, um pouco de malandragem'. Santa Hipocrisia, hein Batman?


(*) Marcos Martino é alvinopolense, compositor e ativista cultural