Desde 1984
Márcio Passos
10 de Setembro de 2021
Covid no meu coração
Não sou lá nenhum modelo de cuidado com a saúde, mas não exagero tanto, mesmo porque sou setentão, diabético e controlo a pressão com um comprimido ao dia. Isso tudo me obriga a fazer exames anuais para ver se a máquina está conservada ou precisa trocar alguma peça. A última bateria de exames foi há onze meses, quando o descontrole da glicose foi destaque e mais nada. Nunca tive sinal de problemas cardíacos nem tenho histórico deles na família.

Um mês após o último checkup bati de frente com a Covid que me deixou quinze dias no hospital, sendo metade deles na UTI. Consegui me salvar e passei os seis meses seguintes cuidando das sequelas. Fisioterapia respiratória e nas pernas, infecção no estômago, pequena perda na capacidade de enxergar e redução na capacidade memorial de guardar dados, entre outros.

Comemorei o retorno à normalidade e caí de cabeça no trabalho, como fiz a vida toda. Tudo caminhava bem e dentro da mais absoluta normalidade quando, há pouco mais de duas semanas, comecei a sentir cansaço acima da média, seguido de falta de ar nos últimos dias. Não pensei duas vezes e procurei imediatamente o médico pneumologista, de onde saí para fazer uma tomografia. Água no pulmão foi o diagnóstico, restando procurar fazer ecocardiograma para saber se a origem estava nos rins ou no coração.

Era o danado do coração que estava bombeando sangue 20% menos. E o pior: os exames mostraram que tive um infarto brando recentemente, sem me provocar nenhuma dor, nenhuma manifestação. Mas o dano estava lá registrado, fotografado e comprovado. Acabei ficando até com dó do infarto, que passou e apenas deixou rastros. Coitado dele e sorte minha.

Brincadeiras à parte, o pneumologista encerrou sua participação no imbróglio e me encaminhou para o cardiologista, onde o infarto foi confirmado e solicitado um cateterismo para medir a saturação do oxigênio, as pressões arteriais e diagnosticar possível qualquer tipo de lesão nas artérias coronárias. E descobriram que a coronária do lado direito estava com 70% de obstrução. O médico me liberou para ir pra casa, depois me internaram novamente,. onde estou esperando na janela e tomando medicamentos para passar por uma angioplastia, ou seja, intervenção para o tratamento não cirúrgico por meio de cateter, com o objetivo de aumentar o fluxo de sangue para o coração. Mas antes, vou precisar tratar uma infecção nos brônquios.

Estou bem e confiante, mas intrigado. Sempre acreditei que o diabetes, a exemplo do que vem se repetindo na família, seria o responsável pela minha morte. Agora, sem aviso e não mais do que de repente, o infarto deu o ar da graça e me exige outros e maiores cuidados. Perguntei ao cardiologista o que pode ter provocado esta surpresa e ele disse que só uma pesquisa com novos exames poderia responder, mas não descartou a possibilidade de sequela da Covid que me acometeu há quase um ano, o que foi comprovado nesta semana como miocardite. Enquanto centenas de milhares de cidadãos pelo Brasil afora continuam nem aí para a pandemia que já matou quase 600 mil pessoas, a Covid matreira e traiçoeira ameaça fazer pousada no meu coração. Sai fora, trem ruim!

(*) Márcio Passos é jornalista e fundador do A Notícia