Desde 1984
Valdete Firmino Roza
27 de Agosto de 2021
Lutar por um mundo mais justo
Sou Valdete Firmino Roza, mulher, negra, lutando por um mundo mais justo. Mulher é sinônimo de luta e resistência. Em tempos de pandemia e fora dela também. Vou contar um pouco da minha história na Associação dos Trabalhadores de Limpeza e Materiais Recicláveis de João Monlevade (Atlimarjom), entidade onde sou tesoureira.

Há 20 anos, a Prefeitura tinha o projeto de construir o aterro sanitário. Na época, cerca de 40 famílias sobreviviam do material reciclado no lixão e, sem ele, não tinham como trabalhar. Foi assim que a Prefeitura constituiu a Atlimarjom, onde passaram a atuar os catadores do lixão, catadores de rua e pessoas que estavam desempregadas naquela época. Eu estava entre os desempregados e fui chamada pela Prefeitura para trabalhar lá.

Porém, a construção do galpão da entidade demorou dois anos para ficar pronta. Quando o galpão foi inaugurado, em 15 de outubro de 2002, muitos catadores do lixão já tinham ido trabalhar em outra função, pois precisavam sobreviver e manter suas famílias, garantir o pão de cada dia. Assim, quando começou, a Atlimarjom contava com uma minoria de catadores do lixão, alguns catadores de rua e os desempregados.

Eu nem sabia o que era material reciclado, aprendi com os catadores como classificar os materiais. Como o projeto era novo, não existia escritório, não tinha material suficiente para comercializar e eu fui para o pátio aprender como classificar e conhecer cada material. Esse aprendizado foi um ganho muito grande porque, mais tarde, eu passei a comercializar o material reciclado da associação.

Nestes anos de atuação na Atlimarjom, fomos percebendo que, em todo mês de dezembro, há um maior volume de material reciclado, devido ao aumento do consumo por causa da época do Natal. Quando chegou a pandemia, houve também um aumento do material reciclável. Isso porque, como as pessoas estavam em casa, elas tinham mais tempo para organizar o seu resíduo e levar para a Atlimarjom como no final de ano.

Nós somos serviço essencial e, sendo assim, na pandemia, continuamos com os trabalhos com a coleta seletiva no município. Mas para trabalhar com segurança, chamamos uma profissional da saúde, a médica Valéria Jacinto, que conversou com os associados sobre a Covid-19 e os cuidados que tínhamos que ter. Uso da máscara e cuidados com a higiene pessoal são prioridades.

A pandemia trouxe mais colaboradores para a entidade. A população separa o reciclado e, inclusive, onde não têm coleta seletiva, os moradores levam para o nosso galpão. Muitos têm esse cuidado. Mas é preciso alertar a população para separar adequadamente o resíduo lixo seco e lixo úmido. Não misturar o lixo de cozinha e banheiro com o lixo reciclado é algo que facilita nosso trabalho. Quando o resíduo está misturado perdemos valor comercial.

Nestes 20 anos, a Atlimarjom já enfrentou muitos desafios. O fato de não desistir e ter coragem de enfrentar todo o processo é muito importante. Neste período de pandemia ficamos mais unidos ainda. Não podemos nunca esquecer que temos Deus que nos ampara sempre em todos os momentos da nossa vida. Mesmo quando achamos estar só, Ele está pronto a velar por nós. Como mulher, o meu recado para elas é que continuem com garra e confiança. Que isto tudo vai passar. Tudo passa.

(*) Valdete Firmino Roza é tesoureira da Atlimarjom e integrante da Acimon Mulher