Desde 1984
João Pedro Pessoa
16 de Julho de 2021
Sobre Flores e Velhas
Numa tarde de julho pelas Minas, eu regava as bromélias de minha avó. Bem de longe, do sobrado, ela me olhava enquanto tomava mate. Com sua calma de Vó Ana, chamou a cuidadora e pediu que a levasse até o jardim. A moça alta, de cabelos muito escuros, calmamente empurrava a cadeira de rodas em minha direção. A moça vestia branco, e a velha vestia um poncho boliviano vermelho vivo, óculos dourados sobre a cabeleira branca. Estava linda, serena, miúda, avó.

Se aproximou, colocou a mão sobre a minha e pediu: “Para com isso João, tá muito frio e a água tá gelada. Elas não gostam. Escondi um riso debaixo da língua, mas obedeci. Coloquei o regador no chão e a levei de volta pra casa. Enquanto empurrava sua cadeira de rodas pra dentro, eu perguntava sobre as bromélias;

- Elas sentem frio, vó?

- Muito menino, faltam só falar. Se tremem todinha por essas horas. A gente tem que molhá-las de manhã cedo, quando faz sol. Se não, pegam friagem ou uma gripe qualquer.

Chegamos em casa e passei a mão nos seus cabelos brancos. Terminamos o mate quente que ela tomava antes de interromper o banho das flores e eu fui embora com o coração apertado de poesia.

Passaram alguns anos e li uma matéria no jornal que ensinava a cuidar de bromélias. Nela se escrevia explicitamente para somente regá-las ao sol. Não li do porquê. Não me interessava. Às vezes, a ciência não explica a poesia. Prefiro pensar que existe um botânico por aí que siga os conselhos de sua avó.

(*) João Pedro Pessoa é monlevadense e estudante de medicina