Desde 1984
Cleonice Gomes
04 de Junho de 2021
Devaneios necessários
Hoje eu não estou me sentindo bem... Uma sensação de vazio invadiu-me a alma e me trouxe até este imenso pasto verdejante, que fica no alto de uma montanha, próximo à minha casa. Decidi ficar só, pelo menos por hoje...

Não...não é culpa de ninguém. Eu é que decidi “bater de retirada” e me embrenhar em pensamentos. Caminhei por longo tempo e estou cansada. Agora, tudo o que eu quero é me deitar sobre este imenso tapete natural e repensar minha trajetória de vida; abandonar-me no azul do infinito e sentir a terra girando ao redor de mim.

Num ímpeto, entrego-me ao vento... Com os olhos fechados e os braços abertos, projeto-me até o céu e viajo nas asas do vento por entre nuvens, planetas e estrelas... Procuro rostos, os mesmos rostos que até pouco tempo estiveram próximos a mim e que já não estão. São amigos... Muitos amigos... Parentes, conhecidos; enfim, tantos que se foram, e em tão pouco tempo, deixando apenas rastros de saudade.

Meu voo é cheio de mistérios, porém, insignificante que sou, não consigo encontrar os rostos nem em pensamento. Desejaria saber pelo menos como estão... Saber se ainda se lembram de mim com a mesma veemência com que eu me lembro deles. Dizer que estou ficando com medo e que eles me fazem falta.

Já não consigo conter as lágrimas... Digo frases descompostas e rumino coisas que nem eu mesma consigo entender. Algo semelhante ao choro de Ana, quando se sentiu abandonada por faltar-lhe o filho.

E lá vou eu, voando nas asas do vento. Não há pessoas, não há rostos e por certo, o infinito guarda mistérios que só quem o criou, sabe. É tanto devaneio, que só vejo nuvens, astros e fachos de luz brilhando no imenso firmamento.

Confesso, sinceramente, que não entendo os desígnios de Deus e nem ouso questioná-los. Estou apenas tentando me readaptar a esta realidade estranha... Esta sensação de vazio misturada à esperança de dias melhores. Os anos estão ligeiros: nem chegou janeiro e lá vem outro janeiro, como o rodopiar de uma valsa. Tudo acontece o tempo todo à nossa volta, numa dinâmica organizada e perfeita. É como uma imensa roda-gigante, onde a cada instante, alguém é convidado a descer. E se esta roda-gigante para lá em cima, queremos que ela desça; mas se estamos cá embaixo, temos a sensação de alívio e medo de que nos convidem a parar.

O cantar eloquente de um pássaro me convida a voltar à realidade. Abro os olhos, mas não consigo prever por quanto tempo estive fora de mim... Sinto-me mais tranquila. Já não tenho medo... À minha volta estão: o pássaro cantante e o imenso verde. Daqui a pouco voltarei para casa já que estranhamente me sinto melhor. Sei que Deus guardou bem as pessoas que amo e que elas estão mais próximas do que eu imagino.

Quanto a mim, continuarei na minha roda-gigante, com medo de descer e com medo de que ela pare lá no alto. Aprendi através das asas do vento que sou pequena para entender coisas que não são da minha alçada. Aprendi também que só Jesus é o caminho, a verdade e a vida.

(*) Cleonice Gomes Nogueira é professora em João Monlevade

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