Desde 1984
() Sheila Couto
21 de Maio de 2021
Mulher múltipla e positiva

Como psicóloga e consultora de negócios, ajudo pessoas e empresas a viverem melhor, resolverem conflitos, serem mais produtivas, essas coisas. Mas não sou apenas isso, você que é mulher já sabe. Sou mãe, filha, esposa, sou eu mesma para além de todos os papéis. Aí veio uma tal de pandemia e, para variar, novos papéis caíram na minha cabeça como uma chuva inesperada e torrencial.

De repente, me vi em casa, vi meu filho em casa, meu marido em casa... todo mundo em casa... o tempo todo. O início foi desordenadamente interessante e até agradável. Parecia uma espécie de férias fora do tempo. Só que não era férias, o trabalho seguiu se adaptando ao online, as aulas do filho também e, o primeiro papel novo, que senti com muita força foi me transformar em professora. Todo meu carinho e respeito às professoras. São lindas e necessárias! Amo vocês mais do que nunca! 

Nessa nova experiência descobri um filho também novo. Antes da pandemia, eu era a mãe da “farra”. Sempre trabalhei muito, mantinha tudo em ordem, terceirizando e acompanhando. Funcionou muito bem. Mas, naquele momento, resolvi eu mesma sentar e olhar a vida escolar do meu filho, suas facilidades e suas dificuldades. No início ele não gostou nadinha! Preferia a mãe da “farra”, ele queria me mostrar o que achava que era o melhor que tinha, ele não queria “tomar” o meu tempo, me mostrar suas dificuldades! Caramba! Meu filho achava que eu trabalhava muito e não queria me dar mais trabalho... Ele tem 12 anos. Não pensem que ele mostrava isso com um texto lindo de mamãe eu te amo e não quero dar trabalho. Não! Ele demonstrava ficando irritado, enrolando, fugindo... mas, eu conheço o coração do meu pequeno, como todas as mães conhecem o coração de seus filhos. E fui, com firmeza e muito amor apertando o abraço para que ele também compartilhasse comigo, não só a farra, mas também suas dificuldades, seu tédio, suas conquistas, suas ideias mirabolantes. E nossa relação ganhou muito em confiança, cumplicidade e humanidade. Amadurecemos. 

Me transformei no relógio vivo da família (marido e filho). Tudo tinha que funcionar! A casa, as refeições, a ordem básica, o trabalho, os estudos... Gente! Sabe por que não ficou insano? Porque eu abri as janelas da diversão, eu soube arejar. Sempre gostamos lá em casa de viajar, nos divertir juntos. Não podíamos mais sair! Então levei a diversão para dentro de casa. Criei várias coisas, mas a preferida foi a “sexta-feira da mamãe”, em que a mamãe (euzinha aqui) ia para cozinha fazer um big sanduíche fenomenal (vocês não imaginam o quanto meu sanduíche é bom!) e toda a família comia no sofá assistindo um filme legal! Nossa hora preferida da semana que funciona até hoje. Ninguém quis largar. Entendi que podemos ser “relógio” mas sem rigidez. Temos que abrir as janelas da flexibilidade, arejar as emoções, curtir o simples prazer de estar juntos e fazendo (por que não?) um pouco de bagunça.

Por fim, à medida que ia buscando estratégias para que todos estivessem bem, tive muita consciência de não cair na armadilha de sair salvando todo mundo e me deixar de lado. Como? Pratico “isolamento social” dentro de casa. Tem hora que não quero ver filho, marido, ninguém. Tem hora que quero estar a sós comigo mesma, me dedicar a coisas que são só minhas. Quero ouvir música, assistir algo só meu, ler um livro, falar com uma amiga, pintar ou ficar quieta e só. Só eu e Deus. Não dá pra salvar o mundo sem cuidar de si. Ah! E me dei um presentão. Comprei uma esteira e fui fazer minhas corridas e caminhadas, dentro do tempo que é bom pra mim. Eu, eu, eu e mais eu. Se alguém quiser me chamar de egoísta vai falar no vácuo. Sabe por que? Porque mais do que nunca eu percebo que, quanto melhor eu estou, melhor eu posso me dar. E, os afazeres e pessoas que amamos não merecem nossos restos. Nos merecem INTEIRAS e BEM. Tá bom, ser positiva no meio do caos não é fácil (nem foi pra mim), mas é o que mantém nossa energia alta (e precisamos de energia!) para amar a vida, a nós mesmas e aos demais. Nós mulheres, somos incríveis, fazemos a diferença e merecemos isso.


(*) Sheila Couto é psicóloga, consultora de negócios e integrante da equipe Acimon Mulher