Desde 1984
Eduardo José Quaresma
30 de Abril de 2021
Olhar 5.7

Escrever sobre os 57 anos da minha querida João Monlevade é prazeroso e claro que cada cidade tem o seu olhar. E não gosto que falem mal ... Nasci e passei parte da minha infância na Rua Tabajaras, 518, e mudamos para Rua Leão XIII em Carneirinhos. A região era pouca habitada, nenhuma infraestrutura. Presenciei o crescimento da região. Fiquei na cidade até 1976, fui para BH estudar na Escola Técnica Federal e depois na minha segunda cidade do coração: Viçosa. Depois voltei, nem sei porque, mas tudo tem um propósito. Fui acolhido novamente e hoje agradeço a Deus as pessoas que Ele colocou em minha vida e que me ajudaram a crescer profissionalmente. 

Desde 1985, ano que retornei à terrinha, participei de várias obras privadas e públicas, com muito orgulho, sou pupilo do Odilon Junqueira, trabalhamos juntos por 35 anos. Mas, minha maior oportunidade foi ter sido convidado pelo Prefeito Bio para assumir as Secretarias de Obras e de Serviços Urbanos. Pude então participar ativamente da revisão do Plano Diretor. Aliado a tudo isto fiz minha pós-graduação em Planejamento Municipal na Universidade Federal de Viçosa. 

E por que descrevi tudo isso? Para mostrar como planejador, alguns olhares sobre a minha João Monlevade. E aqui deixo registrado que nós tivemos o privilégio de ter dois grandes empreendedores na construção de nossa cidade: João Monlevade e Louis Ensch. Dois Engenheiros.

Com as memórias deste tempo que vivi, entendo que as cidades estão sendo construídas para não serem vistas ou mostradas, tudo precisa ser rápido, não dá tempo. Parece que querem nos dizer que o destino é mais importante do que o caminho, que chegar é mais do que o caminhar. E com João Monlevade não foi diferente.

Caminhar pela cidade, ainda possa ser uma viagem, ainda que imaginária, no túnel do tempo. Tudo depende do olhar, desde que seu olhar não fique parado nas fachadas, mas adentre as casas, cumprimente as pessoas ainda que ausentes, ressuscite os que já se foram. Minha escola primária, Grupo Escolar Luiz Prisco de Braga, não existe mais no lugar onde estudei, me leva a rever momentos, alguns exclusivos como aquele em que antes de entrar para a sala depois do recreio, os alunos se perfilavam à frente da professora e só depois seguiam em fila para dentro da sala, já em silêncio. 

E depois o Centro Educacional, sou da segunda turma e que graças a tecnologia nos reencontramos após 43 anos, oportunidade que Deus nos deu. Vamos contar no futuro próximo este nosso reencontro. Um grupo de adolescentes, vovós e vovôs que a cada minuto choram, falam, mas enfim se divertem muito. Quando revejo minha casa da Rua Leão XIII, de alpendre, refaço cenas de conversas com colegas, tempo do carrinho de rolimã, pique, e do campinho das peladas. Muitos já se foram... Ninguém duvida de que somos mais frágeis de que o mundo que nos cerca.

E nossa cidade agora faz 57 anos. Quase uma senhora sexagenária, que precisa de cuidados. Algumas reflexões. As veias e artérias desta senhora estão desobstruídas? Esta senhora tem mobilidade e acessibilidade? As ligações dos neurônios estão ainda com capacidade mental? A estrutura óssea ainda está em boas condições?

Então como vamos cuidar da nossa Monlevade nos seus 60 anos? Será que as redes de esgoto, os canais que não são vistos, estão em boas condições? Será que nossa cidade vai ter mobilidade e acessibilidade? Será que nossa cidade terá capacidade de energia elétrica para continuar seu caminho? De acompanhar a Tecnologia da Informação? E as construções vão ser construídas com sustentabilidade e com inteligência? São perguntas e respostas que pretendo escrever futuramente.

A viagem se projeta no espaço e no tempo, o olhar não para nas colunas imponentes do antigo Colégio Estadual, mas entra na história, apesar da falta que faz o conjunto arquitetônico do Cine Monlevade, do Ideal Clube e do União. De onde teria vindo a inspiração para esta arquitetura que tivemos no início, assim como a Vila Operária, a Igreja Matriz, os Clubes Sociais, quem idealizou e realizou ou ainda como foi o olhar do monlevadense para estas criações, únicas, ousadas...


(*) Eduardo José Quaresma é monlevadense da gema, engenheiro civil e professor universitário