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Editorial
23 de Abril de 2021
Não as matem, pelo amor de Deus!

O título deste editorial é a última frase da crônica “Não as matem”, do escritor e jornalista carioca Lima Barreto, publicada em 1915. Nela, Barreto retrata três casos de feminicídio seguido de suicídio dos autores. O escritor aponta para a barbaridade dos crimes, relatando-os como ações de domínio dos homens contra as mulheres. “Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação (...) Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros. Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer. Não sei se julgam muito diferentes dos ladrões à mão armada; mas o certo é que estes não nos arrebatam senão o dinheiro, enquanto esses tais noivos assassinos querem tudo que é de mais sagrado em outro ente, de pistola na mão”, escreveu. 

O feminicídio é intolerável. A culpa nunca é da vítima e não adianta apontar dedos para os motivos. A verdade é que nenhuma mulher deve perder a vida nas mãos de um homem, ainda mais, de um companheiro atual ou mesmo de um ex, inconformado com o término de relacionamentos. 

Ao menor sinal de violência, a polícia deve ser comunicada e um boletim de ocorrências deve ser confeccionado. Há canais, como o 190 e o 181, que acionam a polícia nesses casos. A denúncia pode ser sigilosa e salva vidas. O Brasil é um país machista onde uma mulher é morta a cada sete horas. São mais de três mortes por dia, por sua condição de mulher, por sofrer preconceitos, importunação sexual e violência doméstica. É preciso mudar esse cenário, que fica tão mais assustador, quando acontece próximo de nós. Não se trata de tragédia sem precedentes porque elas acontecem todos os dias. Infelizmente. 

 Além disso, os homens precisam passar por um processo de reeducação, para entenderem que ninguém é dono de ninguém. Não interessam os motivos: nada justifica crimes contra as mulheres. Famílias de autor e vítima sofrem, são destroçadas, filhos ficam sem mãe. É hora de repensar a violência contra a mulher e agir contra essa mancha. Repetindo o texto centenário de Lima Barreto: “Deixem as mulheres amar à vontade. Não as matem, pelo amor de Deus!”