Desde 1984
Remisson Aniceto
19 de Março de 2021
O Inquilino Eventual

Ele é uma visita que ninguém merece conhecer. E quem ama a vida e a família não deveria se arriscar a recebê-lo dentro de casa. Mas ele só vem se alguém sair e for buscá-lo na rua. Ele sempre está procurando um lugar pra morar. Fica se esgueirando por todo lado, pela cidade inteira, em todas as ruas, em cada comércio, dentro dos ônibus, metrô, no trem, nos táxis, em cada esquina, buscando uma casa pra se esconder, um lugar seguro, aconchegante e bem quentinho pra se hospedar.

Ninguém o vê quando sai nas ruas, mas ele nos vê. Também não o vemos nos seguindo quando voltamos pra casa, mas ele nos segue, vem abraçado, grudado em nós mesmo sem ter sido convidado, feito carrapato no boi.

Quem está em casa não o vê entrando com a gente. E ele, sem constrangimento e bem à vontade, abraça todos da nossa família e até os amigos que estiverem ali. Ele adora aglomeração, não falta a uma reunião e entra de penetra em todas as festas, nos bares lotados, em todas as baladas. Detesta ficar sozinho: quanto mais gente, mais ele se enturma com todos. E dança, ri, come, bebe, deita, dorme e acorda com todo mundo.

E, sem que ninguém perceba, ele passa a conviver com todos nós por um curto tempo, sai com quem sai a toda hora, abraça quem encontrar pelas ruas, mesmo aqueles que não abraçamos, e vai com estas pessoas para as suas casas, ao mesmo tempo em que volta com a gente, se ainda tivermos forças pra voltar.

Ele é um hóspede mudo e dissimulado que não se demora muito em cada moradia, que normalmente fica pouco tempo, alguns dias somente na mesma hospedaria. Mas ele se sente à vontade em qualquer casa e se comporta como se fosse um velho membro da família. Se aproveita ao máximo de nós quando o acolhemos, como se fôssemos um hotel de luxo onde nada lhe faltasse para ele permanecer bem vivo.

Nunca paga aluguel, porém cobra caro pra morar e ainda expulsa o proprietário da casa quando bem quer. 

Ele é um mágico ou bruxo que consegue ficar em muitas casas ao mesmo tempo, mas só permanece na mesma residência enquanto houver alguém morando nela.

Enquanto está morando conosco, ele nunca nos deixa vê-lo, e quando conseguimos sentir a sua incômoda presença, normalmente já estamos sem forças e sem ânimo para expulsá-lo.

Quando passamos mal, quando nos falta o ar, quando não podemos andar ou falar, ele, parecendo solidário, não nos abandona um segundo. Mas não pensem que é por solidariedade que ele nos acompanha quando alguém nos leva às pressas para o hospital e que ele fica ali conosco o tempo todo, até deixarmos de sofrer e sermos liberados pelos médicos pra ir morar noutro lugar estranho e bem longe da nossa casa. Ele só fica do nosso lado, como um fiel guardião, para ter a certeza de que pagaremos o altíssimo preço que ele cobra por ter morado alguns dias em nossa casa.

E quando ele finalmente nos cobra o último aluguel (e isso normalmente acontece quando estamos longe da casa onde o resto da nossa família nos espera), sem deixar que o vejamos e sem nos dizer uma única palavra, ele nos põe uma venda nos olhos e na boca e nos impede definitivamente de voltar para a nossa família.

Se você não quiser encontrar este visitante e ser obrigado a levá-lo para a sua casa sem perceber, evite sair sem necessidade, proteja-se e proteja a sua família, os seus amigos, os seus vizinhos e até as pessoas que você não conhece. 

Um abraço (por enquanto à distância). 


(*) Remisson Aniceto é escritor novaerense e assistente de administração no Colégio Franciscano Stella Maris, em São Paulo