Desde 1984
Erivelton Braz
12 de Fevereiro de 2021
Meu carnaval sem nenhuma alegria

Neste ano por questões óbvias, o carnaval será diferente. O coronavírus mudou a rotina do mundo e impediu a realização da maior festa popular do Brasil. Tal qual o samba de Assis Valente, “E o Mundo Não se Acabou”, neste ano não haverá batucada. Amanhã seria sábado de carnaval, e será um sábado como qualquer outro.

Bom para os que dizem detestar a folia. Sim, eles existem. Saíram do armário e estão por aí, destilando seus xingamentos contra o carnaval e dando graças a Deus por esse ano não ser igual àquele que passou. Respeito quem não goste do agito carnavalesco. Afinal, cada um é como é. Só não concordo com quem quer punir a alegria do outro.

O carnaval é bom, não só para brincar três dias para tudo se acabar na quarta-feira. O carnaval é riqueza, é diversidade. É o encontro do sol e da lua, de mais de mil palhaços no salão ou nas ruas. É a festa em que se é permitido sorrir sem culpa. De ser quem quiser. Onde as dores e dramas cedem sua rigidez por um instante. O carnaval é a mistura de sabores, de sensações e de emoções. Festa de cores, de sons e ritmos. Festa do nosso lado nagô em que o coração batuca ao som do negro toque do agogô. Festa de e para todos e todas.  

É no carnaval que a gente se permite sonhar. Que o homem acredita que pode voar nas costas de um passarinho ou nos beijos de um beija-flor. É no carnaval que se pode amar quem quiser, sem preconceito ou mania do passado. É tempo de acreditar em um novo tempo, apesar dos perigos.

Podem pensar que ainda divago bobagens. Se nenhum dos argumentos poéticos tem valor, quem sabe os econômicos? O cancelamento do Carnaval para conter o contágio da Covid-19 provocará impacto sobre a geração de riqueza e de postos de trabalho. Dados reunidos pelo Jornal Folha de São Paulo, com base nos festejos de 2020, indicam que pelo menos R$8 bilhões deixarão de circular na economia e cerca de 25 mil empregos temporários também não serão criados. A estimativa é da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).

Carnaval demanda fantasias, lantejoulas, maquiagens, trio elétricos, além de muita comida, bebida e movimento de vai e vem – para chegar na folia ou fugir dela. Além de movimentar grande parte do cenário artístico, hoteleiro e gastronômico dos municípios, o Carnaval representa uma importante fonte de renda para outro numeroso grupo: o de vendedores ambulantes e de trabalhadores informais que também ganham um dinheiro extra que ajuda nos demais meses do ano. Em Belo Horizonte, ao todo, 14.860 pessoas fizeram o cadastro para trabalhar no Carnaval de 2020. É um prejuízo enorme em todos os sentidos. 

No ano passado, só o Rio de Janeiro, que promove a maior festa do país, movimentou R$4 bilhões. A ocupação hoteleira ficou em média em 93%, dentre os hóspedes, 77% eram brasileiros e 23% estrangeiros. Em São Paulo, foram R$2 bilhões e, em Salvador, R$1,25 bilhão. Isso, em uma semana de festas. 

 A aglomeração, que está terminantemente proibida durante a pandemia, traduz o Carnaval do Brasil, que não tem data para ser realizado em 2021. O prejuízo de toda a rede de consumo por trás da folia afeta não só quem tem uma renda extra nos quatro dias, mas também os que têm toda a vida baseada em fazer a festa acontecer. Artistas, artesãos, músicos, blocos, profissionais de som e luz, barraqueiros, ambulantes, as cidades e o povo, enfim, ficam a ver navios. Uma tristeza que parece não ter fim. Ao contrário da felicidade. 


(*) Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação