Desde 1984
Breno Eustáquio da Silva
02 de Outubro de 2020
Baseado em fatos reais
Após um árduo dia de trabalho, as namoradas chegam de mãos dadas ao condomínio para o qual se mudaram há uma semana. Próximo ao parquinho, dois homens, cada um com seus filhos de 8 anos de idade, presenciam a cena. Após algum tempo, todos vão para os seus apartamentos. Mas as duas crianças, curiosas, querem saber: duas mulheres ou dois homens podem formar um casal?

O primeiro pai, visivelmente constrangido, não responde ao filho que insiste. O grito de “cala a boca, pois isso não é de Deus” dá lugar ao habitual silêncio que o pai impõe quando está em casa. E o menino, chateado, vai para o seu quarto cheio de dúvidas, porém com a convicção de que há algo errado. O inocente só ainda não consegue saber o que é. O pai, então, toma uma decisão. Pega papel e caneta e escreve um bilhete: “Olá vizinhas. Nosso condomínio é um local de família. Respeitamos todas as pessoas e não nos importamos com o que cada um faz dentro de sua casa. Mas hoje eu tive que explicar pro meu filho pequeno o porquê de duas mulheres de mãos dadas. Respeito, por favor”. O bilhete, que não foi assinado, é deixado no para-brisa do carro do casal.

Alguns andares acima, o outro pai decide conversar com seu filho para não deixá-lo sem respostas. “Sim, meu querido. Duas mulheres ou dois homens podem, sim, se unir como casal. É um ato normal”. A criança ainda pergunta: “mas papai, ouvi meus amigos na escola dizerem que não é de Deus”. O pai responde: “filho, as pessoas são diferentes e pensam diferente sobre muitas coisas. Acredito ser radical condenar alguém por isso e falar em nome de Deus. Essa realidade existe e devemos respeitar ao próximo se quisermos ser respeitados”. A criança continua: “papai, quer dizer que, quando eu crescer eu posso gostar de outro menino?”. O pai dá um abraço no filho e responde: “sim, só que você é muito novo para se preocupar com isso. Mas quero que saiba, desde sempre, que papai te ama e sempre vai te amar do jeitinho que você é”. O filho dá um beijo no pai e cinco minutos depois o garoto já está distraído, mergulhado no mundo de brincadeiras e imaginações do universo infantil.

Moral da história: o ódio e a ignorância são sementes que plantamos, muitas vezes, de forma inconsciente a partir dos exemplos que damos para os outros, em especial para as crianças. O mundo em que vivemos pode ser um lugar melhor para todos se consideramos a diversidade humana e nos educarmos dia após dia, entendendo a realidade com inteligência e parcimônia.

(*) Breno Eustáquio da Silva é professor universitário