Desde 1984
Breno Eustáquio da Silva
18 de Setembro de 2020
A difícil arte da gentileza

Você já parou para pensar o quanto é difícil ser gentil o tempo todo? A boa educação pede que sejamos, mas nem sempre conseguimos tratar todas as pessoas da mesma maneira, até porque algumas abusam. É como se fosse um instinto: quando percebemos relações tóxicas (seja em relacionamentos amorosos e até mesmo entre amigos) imediatamente substituímos a gentileza por um pouco de grosseria. É claro que há exceção. Tem gente que tem uma capacidade muito grande de inteligência emocional e são “grosseiras” sem parecer, entende? Mas a maioria de nós esbraveja, reage e é aí que está o problema: uma grosseria gera um passivo grave nas nossas relações.

Certa vez ouvi uma explicação muito convincente de um consultor de carreira: uma gentileza tem um prazo de validade estimado em 90 dias. Isso quer dizer que, para cada coisa gentil que você faz para alguém, ela deverá ser esquecida em três meses. Já a grosseria não é esquecida tão cedo. Dependendo da pessoa, a mágoa gerada dura uma vida toda!

É por isso que, para o bem de nossas relações, devemos sempre praticar a gentileza. Uma vai substituindo a outra à medida que a mais antiga vai sendo esquecida. Mais uma vez, ressalto a necessidade de considerar as exceções. 

Porém, como ser gentil o tempo todo em um país em que a empatia parece não ser a qualidade principal de seus cidadãos? Cada vez que passo no Areão e vejo pessoas jogando entulho no local (que está a cada dia mais parecido com um lixão) fico com vontade de sair do carro e partir para a ignorância. Aquele lixo vai acumular água e levar dengue para moradores próximos. Sem contar o lixo que será levado pela enxurrada, que entupir bueiros e inundar o bairro Carneirinhos, levando caos e prejuízo para o comércio. 

Também tenho o mesmo sentimento por motorista que não dá seta ou não para no cruzamento mesmo com o aviso de parada obrigatória. Aliás, motorista gentil quase não se vê por aqui! Na última semana, assisti estarrecido a um vídeo de uma câmera de segurança que mostra o momento em que um caminhão faz uma conversão para acessar um posto de gasolina em Bela Vista de Minas e atinge em cheio uma moto. Os dois rapazes que estavam nela morreram na hora. Como pode um motorista fazer uma manobra daquela sem a devida atenção? Dirigir com atenção redobrada não é apenas um ato de gentileza: é uma responsabilidade, pois vidas podem ser tiradas. 

É por essas e outras que penso que só poderemos criar no brasileiro o costume da gentileza se mudarmos a cultura do malandro e começarmos trabalhos intensos de educação, o que demandará anos. Até lá, é ter muita paciência para não perder as estribeiras e não levar fama de brigão. Afinal, gentileza gera gentileza por mais difícil que ser gentil o tempo todo possa parecer.

(*) Breno Eustáquio da Silva é professor universitário