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13 de Maio de 2022
O último desbravador do século XIX

205 anos da chegada de Jean Monlevade ao Brasil

“14 de maio de 1817 – Jean Antoine Félix Dissandes de Monlevade, francês, 28 anos, estatura regular, barba regular, sobrancelhas cerradas e olhos azuis – Vai para Minas e leva consigo dois escravos”.

Assim consta o Registro de Estrangeiros 1808-1822, Col.423 – livro 1, fl. 6 do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro sobre a chegada do engenheiro de Minas, pesquisador ousado, último desbravador europeu a cruzar o Atlântico e iniciar uma edificação onde antes nada havia. Essa “Certidão de Nascimento” de Monlevade ao Brasil é uma das poucas descrições físicas do homem que foi fundamental para o desenvolvimento da siderurgia nacional, deu sobrevida à mineração (após a exaustão do ouro de aluvião) e foi um dos pioneiros, que deu origem ao que no futuro seria a maior siderúrgica da América Latina e também essa cidade.    
Após chegar ao Brasil, Jean de Monlevade ficou cerca de três meses no Rio de Janeiro, à espera de uma permissão de entrada, já que havia restrições à chegada de estrangeiros no estado, rico em minerais. 
A vida de Monlevade aqui é marcada pela força do pioneirismo. Abriu uma Fábrica em Caeté, trabalhou com o Barão de Eschwege, minerólogo, geólogo e metalurgista em Congonhas do Campo. Além disso, percorreu o estado de Minas fazendo pesquisas diversas, mantendo relações com personalidades da época, como o Barão de Catas Altas (inclusive, casando-se com a sobrinha dele, Clara Sofia de Souza Coutinho, com quem teve dois filhos).
Com uma visão futurista, adquiriu terras que pertenciam a São Miguel do Piracicaba, e construiu sua moradia: A Fazenda Solar, onde montou uma fábrica de ferro em 1825. Esse empreendimento, foi engrandecido em 1827, ao importar da Inglaterra, equipamentos maiores para ampliar a sua produção, atendendo a importantes Minas de Ouro, como Gongo Soco e Morro Velho. 
Monlevade abriu estradas da região, canalizou córregos, implantou um sistema moderno e inédito de forjas tanto que, em 1853, sua fábrica produzia aproximadamente 50 arrobas diárias de ferro, com média de 150 escravizados movimentando 6 fornos. 
Em tempos em que a escravidão é condenada, não se pode desconsiderar que essa era a mão de obra da época de todo o país. No entanto, os registros históricos apontam que o próprio Monlevade os treinava e lhes pagava quando trabalhavam nos domingos e dias santos. Além disso, construiu um cemitério para eles, num tempo em que os escravizados eram atirados a valas comuns após sua morte. 

Legado

Mas o que fica dessa data histórica, 14 de maio, é que Jean de Monlevade nunca mais saiu desta terra e escolheu ficar aqui para sempre, onde descansa, 150 anos após a sua morte. Depois de trabalhar até os oitenta anos de idade, em mais de meio século de produção ininterrupta, conforme registros de viajantes, ele falece em 1872 e é sepultado, por vontade própria, no cemitério que construiu, nos arredores de sua casa e do gigantesco empreendimento em que se transformou a sua Fábrica. 

 

 

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(*) Joel Paschoa

 

Jean Monlevad viveu a influência da atmosfera intelectual e científica dos filósofos Iluministas, que 'conceberam o sonho de libertar o homem através do conhecimento, da ciência e de suas descobertas e experimentos'. 
Bebeu dessa fonte nos estudos feitos em Paris. Os metais, as pedras e o sentido de futuro de uma siderúrgica, que nos levaria à grande revolução industrial futura. Do século XlX ao XX, um passo... do ferro ao aço, um voo de asas cada dia mais abertas.
A Revolução Francesa plantara seus ideais de 'Igualdade Fraternidade Liberdade'. Pronto. Estava então a humanidade indo na medida além de seu tempo, do chão em que habitava.
Jean preferia com seu espírito inquieto a prática, o experimento para tudo que exigia uma explicação. 
Um espírito portador embalado pelo sentido de ser grande, de ser audacioso, de romper barreiras. Para ele estas foram feitas para serem tomadas. 
Nada melhor que o Novo Mundo. O futuro Brasil, a sempre Minas Gerais e seus tesouros que gaia cedeu. A prática experimental, a observação da natureza era todo o ideário do século XVIII e se afirmando no século XIX. Desbravar por-se em provas, ser livre para construir o agora .
A matéria e a natureza precisavam serem domadas, os elementos do fogo e da água em meio a floresta tropical. 
Interagir, experimentar, descobrir. Tomar posse. Caminhos do pensar e da ação trouxeram o jovem Jean Monlevad a ir ao encontro de seu destino.
Assim, num primeiro momento, herdarmos esse legado, o fundador o desbravador deixou-nos esse legado. Herdeiros que somos de um rico passado, que deve formar e mover presente e futuro, para com aqueles que assim somam.
Somos guardiões, onde tudo se mescla, se reinventa e se aprimora, quando legitimada por bases fortes.
Num segundo momento surge a figura de Louis Ench, que também arauto e praticante desse visionarismo faz complemento à base dos alicerces estruturais passados. O futuro então não será, mais o é a partir de então.
Monlevade nasceu de um berço de ferro e aço, embalados na forja de eucaliptos manjedouras. O feito. Sobrevive a memória, o exemplo. Um sonho que se fez acordado, que deve despertar orgulho e sentimentos de identidade. A história se entrelaçando. Hoje e sempre. Sem meros saudosismos, mãos a obra, pois como dizia nosso Raul Seixas - nosso Raulzito: 'Sonho que sonha só/ é apenas um sonho que se sonha só/ mas sonho que se sonha junto,/ é Realidade '.

Maio de 2022, na graça de Nosso Senhor Cristo. Assim como era e será . Amém.

 

(*) Joel Alves da Paschoa é terapeuta holístico, artista plástico, pesquisador e militante cultural em Monlevade na década de 1980