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13 de Maio de 2022
Abusos sexuais contra crianças e adolescentes aumentam 750%
Imagem ilustrativa

Em dois anos de pandemia, números saltam de 6 para 51 em Monlevade

Os números do abuso sexual contra crianças e adolescentes em João Monlevade cresceram assustadoramente nos últimos dois anos. Eles tiveram um aumento de mais de oito vezes (750%), entre 2019 e 2021, durante o período da pandemia. 
De acordo com a coordenadora do Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas), Tatiana Meireles, já em 2020, primeiro ano da Covid-19, o Centro registrou um aumento de quase 400% de casos de abuso sexual em crianças e adolescentes, se comparado ao ano anterior. Em 2019, quando ainda não havia a pandemia, foram seis registros. Já em 2020, foram 23 notificações e, em 2021, os casos saltaram para 51, totalizando 850% de aumento da violência sexual no período. E os números não param. Neste ano, levantamento entre os meses de janeiro e abril aponta que já chegam a 18 denúncias.  
Conforme a coordenadora, a grande maioria dos abusadores é da própria família da criança: pais, padrastos, avôs, tios e quando não são familiares, geralmente são pessoas do convívio da criança, por exemplo, um vizinho. Assim, durante o confinamento, as vítimas passaram a conviver mais de perto com seus abusadores, no ambiente doméstico. 'O aumento da violência sexual contra crianças e adolescentes se deu pelo fato de que as crianças estavam mais reclusas em casa por conta da pandemia', afirma Tatiana.
Esses registros podem ser ainda maiores, considerando o cenário de subnotificação, que pode ter sido potencializado com o fechamento de escolas e de espaços de convivência social. Nesses locais, a violação costuma ser percebida ou denunciada. 

Os casos

Segundo Tatiana, a maioria dos abusos são de atos libidinosos, “aqueles que não deixam marcas, tais como: passar as mãos nas partes íntimas das crianças e dos adolescentes”. Ela explica que o Creas, principalmente após a pandemia, tem recebido mais crianças vítimas de abuso sexual, de 2 a 11 anos de idade.

Ações 

De acordo com a Prefeitura, profissionais do Creas visitam 12 escolas públicas de João Monlevade nesta semana, com palestras de prevenção contra o abuso infantil. O objetivo é preparar os profissionais para escutarem as crianças ou adolescentes que relatem uma situação de violência e ter conhecimento onde conseguir atendimentos adequados.
Na ocasião, os agentes informam os estudantes sobre a violência sexual e as formas de denunciá-la e coibi-la. Agentes comunitários de saúde e beneficiários do cartão Cesta Cidadã também participam dos encontros. Educadores da rede municipal foram capacitados para, de forma pedagógica, inserirem o assunto em sala de aula, para ampliar o debate e informar as crianças e adolescentes.
Ao longo do ano, a Secretaria de Assistência Social, assim como as secretarias de Saúde e Educação, desenvolvem campanhas de enfrentamento e conscientização. Em 2018, o Creas capacitou 600 profissionais da rede de atendimento a crianças e adolescentes para a realização da escuta especializada das vítimas. Em 2021, o Creas realizou um webnário sobre os abusos, envolvendo vários atores, tais como Delegacia Especializada, Poder Judiciário e Ministério Público. 
Acolhimento

Segundo a Prefeitura, as famílias das crianças vítimas de violência são atendidas por conselheiros tutelares que aplicam medidas de proteção. Se ainda o Boletim de Ocorrência não tiver sido registrado, a família é orientada a comparecer à Delegacia Especializada para fazer a  ocorrência. Quando a família se nega a registrar, o próprio Conselho Tutelar faz esse registro na Delegacia Especializada. 
A área de saúde também é acionada para fazer o atendimento em algumas situações. “Caso a criança ou adolescente esteja com sintomas em decorrência da violência, tais como: depressão, ansiedade, regressão no desenvolvimento, o Creas faz encaminhamento para a Divisão de Saúde Mental do município, onde psicólogos e psiquiatras estão aptos a acompanharem o caso, visto que as psicólogas do Creas não poderem realizar atendimento clínico, pois esta é uma atribuição apenas de psicólogos lotados na Saúde”, explica Tatiana, em nota enviada pela Assessoria de Comunicação. 

Denúncias

Qualquer pessoa pode denunciar agressores que cometem esse crime. Em situações de suspeita ou confirmação de violência a crianças e adolescentes é necessário acionar o Disque Direitos Humanos (Ligue 100). A ligação é gratuita, anônima e com atendimentos 24 horas, todos os dias da semana. As denúncias também podem ser feitas diretamente no Conselho Tutelar do município, por meio do telefone 3851-3032 ou Polícia Militar (190). A identidade do denunciante é mantida em sigilo. O Creas está localizado à rua Kennedy, nº 110, no bairro Nossa Senhora da Conceição.  O telefone para contato é o (31) 3852-7301 e o WhatsApp é (31) 98719-9348.
Além das denúncias, segundo Tatiana, para minimizar os crimes, é preciso um trabalho em rede: Assistência Social, Saúde, Educação e Família. “Todos os órgãos que atendem as crianças e adolescentes precisam trabalhar de forma conjunta para que as informações sobre a violência sexual cheguem até eles para que as vítimas saibam defender-se e o que devem fazer”, afirma. 
As ações realizadas integram o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, celebrado em 18 de maio. A data foi escolhida em memória da garotinha Araceli Cabrera Sánchez Crespo, residente na Serra (ES), que foi sequestrada, violentada e morta aos 9 anos de idade, em 1973.