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10 de Janeiro de 2022
Monlevadenses falam sobre enchente histórica: “Igual, só em 1979”

Os bairros de João Monlevade às margens do rio Piracicaba continuam vivendo nesta segunda-feira (10), o drama das enchentes do fim de semana. Os bairros Amazonas, Santa Cruz e Centro Industrial permaneciam ilhados durante a manhã, enquanto os moradores eram forçados a deixar suas casas, sem terem noção de quais dos seus pertences foram inutilizados. Na manhã desta segunda-feira, o nível das águas estava em 7,8 metros no trecho de Monlevade, e a água aparentava estar mais alta que na manhã do domingo. 

Dona Margarida Maria Alves, moradora do bairro Amazonas há mais de quatro décadas, conta que apenas havia visto uma inundação de mesmo porte em 1979, quando sua casa ficou alagada por 15 dias. Segundo ela, a Defesa Civil e a Prefeitura estiveram no local para alertar os moradores, mas ela optou por ficar: “Só que sou teimosa, não confiei em Deus e fiquei dando limite à água”. Até a manhã de hoje, ela ainda não sabia quais pertences foram danificados. Agora, ela está abrigada na casa da filha, no bairro Loanda. 

Morador do Amazonas há cerca de 10 anos, Bruno César da Silva também diz que foi avisado pelas autoridades sobre a inundação, ao contrário de 2020, quando foi pego de surpresa. Ele relata que ele e a esposa resistiram e só saíram de casa por volta das 16 horas de ontem (9), com a água a atingir o pescoço. Como no alagamento passado, a água atingiu cerca de um metro, ele teve a ideia de elevar seus móveis em 1,5 metro, o que crê não ter sido suficiente. Segundo Bruno, muitos moradores preferiram ficar em casa, acreditando que as águas não subiriam tanto. Proprietário de uma casa financiada, ele diz que, depois da atual enchente, fará algo que já havia pensado em fazer nas cheias de dois anos atrás: abandonar o Amazonas. 

Prefeito e vice visitam locais 

O prefeito Laércio Ribeiro (PT) e o vice, Fabrício Lopes (Avante) estiveram nos locais mais atingidos. Laércio manifestou tristeza pelas perdas materiais sofridas, e afirmou que conversou com moradores dos bairros Santa Cruz, Amazonas e da rua Tapajós, no Centro Industrial. Ele reiterou que a Prefeitura está prestando assistência aos afetados, e mantém contato com outros prefeitos da região para ações em conjunto.

Já o vice-prefeito e secretário de Planejamento, Fabrício Lopes (Avante), pediu união no combate às consequências da chuva, elogiou a solidariedade dos monlevadenses, e relembrou que a Prefeitura se mantém alerta desde a sexta-feira.  Segundo Lopes, as vítimas da inundação foram abrigadas na Escola Municipal Eugênia Scharlé, e a equipe de Assistência Social está à disposição dos flagelados. Ele diz que mantém contatos com a Cemig para reativar a energia elétrica para o maior público possível, mas como o nível dos rios está muito alto, ainda não é possível retomar a distribuição de água potável, e é necessário economizar. O vice-prefeito ainda assinala que, depois que as águas baixarem, será realizada uma operação de limpeza e normalização da vida. Além da visita do Executivo, na manhã desta segunda-feira, funcionários da Prefeitura vacinavam os moradores do Amazonas contra o tétano e a Hepatite A.

Reclamações

No entanto, durante visita do A Notícia na manhã de hoje, os moradores das ruas mais baixas do bairro Centro Industrial, como a Tapajós, reclamaram que não tiveram assistência do município com a remoção de bens, alimentação, higiene ou vacinas. Francisco Gomes conta que a comunidade foi avisada para que se levassem os móveis para a escola Eugênia Scharlé, no bairro Vila Tanque, mas a Prefeitura não ofertou o transporte. Ele conta que viu enchentes desse tipo somente ocorreram em 1979 e 1997, quando ele residia justamente no bairro Amazonas. 

Os vizinhos da Tapajós contam que tudo o que conseguiram fazer para enfrentar o alagamento ocorreu graças a voluntários e à união da comunidade, sem o apoio da Prefeitura.  Na manhã desta segunda-feira (10), a água atingia várias das casas e a gruta Nossa Senhora Aparecida. Residindo há 19 anos no Centro Industrial, Lúcio Batista Gomes conta que já presenciou algumas inundações, mas nenhuma desse porte. Ele é enfático ao criticar a ação das autoridades municipais: “Não tive ajuda de ninguém para tirar os móveis. Eles só vieram avisando que o rio iria subir, mas não falaram que viria um carro para tirar os móveis e nem que horas isso iria acontecer com a gente”. Lúcio diz que não recebeu apoio do poder público e diz que todos os seus bens estão submersos.