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26 de Novembro de 2021
Professora de Monlevade é referência nacional em finanças familiares

A professora monlevadense Kelmara Mendes, 49, é uma das mais gabaritadas pesquisadoras sobre as finanças familiares no Brasil. Professora Associada da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), coordenadora do Programa de Pós-graduação em Administração Pública (PPGAP) da mesma universidade, ela recebeu o prêmio Pesquisador Gaúcho na área de Economia e Administração em 2021.
A edição do Prêmio Pesquisador Gaúcho 2021 teve como tema: “A Ciência a serviço da Sociedade”, destacando a contribuição da ciência no combate à pandemia e o seu potencial em gerar inovação, riquezas e bem-estar, contribuindo para uma sociedade melhor. A categoria Pesquisador Destaque reconhece pesquisadores com uma carreira brilhante na pesquisa científica, nas suas áreas do conhecimento.
As pesquisas de Kelmara tornaram-se destaques por abordar o cotidiano das finanças familiares. Os estudos são focados em temas como a alfabetização financeira, o uso do cartão de crédito, o endividamento, a inadimplência e o gerenciamento dos recursos. A professora também estuda as vantagens para o beneficiário de programas públicos de transferência de renda, como o Minha Casa, Minha Vida, o Bolsa-Família e o Pronaf. 

“Brasileiro tem dificuldades com finanças”

Para Kelmara, o brasileiro comum ainda precisa avançar muito para aprender a gerir o seu dinheiro: “O brasileiro, pelo baixo nível de educação financeira, tem muita dificuldade em gerenciar adequadamente suas finanças. Quase 70% das famílias brasileiras estão endividadas. E uma em cada quatro famílias estão com dívidas em atraso. A maioria das famílias possui dívidas no cartão de crédito, um produto com taxas de juros muito alta. Além do cartão de crédito, o uso excessivo do crédito consignado está contribuindo para o superendividamento”, afirma. 
A professora diz que o excesso de oferta de crédito faz o cidadão acreditar que seu dinheiro é maior do que de fato é: “O limite do cartão, por exemplo, permite muitas vezes um volume de compras muito maior do que seria possível se só fossem realizadas compras com dinheiro. Cada vez mais o mercado financeiro está oferecendo facilidades para a obtenção de crédito, por exemplo, as empresas oferecendo crédito para negativados. Se as famílias não praticarem um controle rígido das suas finanças, podem facilmente cair nessas tentações”.
 
Trajetória

Filha de Geraldo da Silva Vieira e dona Margarida Mendes Motta Vieira, moradores do bairro República, Kelmara estudou na Escola Estadual Antônio Papini e no Centro Educacional de João Monlevade (CEJM). Em 1992, Kelmara deixou João Monlevade para estudar Administração na Universidade Federal de Viçosa (UFV), graduando-se no fim de 1995. No ano seguinte, ela mudou-se para Porto Alegre, onde fez mestrado até 1998, ano em que foi admitida na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tradicional casa de estudos gaúcha, fundada em 1960. Seus estudos prosseguiram pelos anos seguintes, com uma especialização em estatística e modelagem quantitativa em 2003, um doutorado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2006, uma graduação em estatística pela UFSM em 2019 e um pós-doutorado em 2020 pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 
Da juventude em Monlevade, ela recorda-se dos campeonatos de bicicross no antigo campo de aviação, das disputas de handebol nos Jogos do Interior de Minas (Jimi) e das feiras de artesanato na praça Sete de Setembro, vendendo bichinhos feitos com birosca, “durepoxi” e tinta. Nessa época, seu pai era sócio em uma pequena empresa de transportes, prestadora de serviços para a então Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira (CSBM), e ela ajudava na loja Kiko, de propriedade de sua tia. 

“Mineira Gaúcha”

Para a docente, o Rio Grande do Sul tornou-se uma nova casa, e ela fincou raízes nos pampas: “Acho que sou uma mineira gaúcha. Mesmo passados mais de 20 anos, ainda não me acostumei ao frio, mas já aprendi a gostar de um churrasco gaúcho. O Rio Grande do Sul me proporcionou oportunidades para construir a minha carreira e fazer o que gosto, mas também não esqueço da minha raiz mineira e ainda mantenho muito da cultura e da culinária mineira”. Kelmara, que também é casada com um mineiro, cogita uma volta para Minas Gerais somente depois de sua aposentadoria.
Comparando a cidade de Santa Maria com João Monlevade, Kelmara destaca que a cidade gaúcha, com 285 mil habitantes, é muito maior que João Monlevade, sendo uma cidade genuinamente universitária, com uma universidade federal, outra privada e várias faculdades, bases da Força Aérea Brasileira (FAB) e do Exército Brasileiro e uma ampla rede de hospitais: “Assim, Santa Maria acaba tendo um nível de desenvolvimento maior, e proporcionando mais oportunidades aos seus cidadãos. Monlevade tem conseguido alguns avanços nos últimos anos, mas, quando volto à cidade, ainda percebo uma certa estagnação. Diferentemente da minha época, em que tive que sair de João Monlevade para poder fazer uma graduação, a ida das universidades para Monlevade trouxe para os jovens da cidade oportunidades de avançarem na educação, sem ter que sair da cidade, mas agora o problema é outro: gerar emprego para que esses jovens possam se formar e permanecer na cidade”.