A próxima terça-feira, 29 de setembro, é o Dia Mundial do Coração, data criada para chamar a atenção para as doenças cardiovasculares e para a importância de preveni-las. Infarto e acidente vascular cerebral (AVC) continuam entre os principais problemas relacionados ao órgão vital, mas a prevenção não deveria começar apenas quando surgem os primeiros sintomas, nem quando se chega à determinada idade.
A cardiologista Maria Eugênia Tótola (foto) chama atenção para o fato de que os fatores de risco tradicionais continuam presentes, mas convivem agora com hábitos que se incorporaram ao cotidiano, principalmente, entre os mais jovens. Hipertensão, diabetes, tabagismo, sedentarismo, obesidade e estresse seguem entre as principais ameaças ao coração. Ao mesmo tempo, o uso de anabolizantes para ganho de massa muscular ou melhora de performance, cigarros eletrônicos, energéticos e a privação do sono passaram a integrar a lista de preocupações.
Ela alerta que essas doenças não acometem apenas idoso. “A gente precisa entender que doença cardiovascular não é um problema apenas de pessoas idosas. Um jovem pode ter um risco cardiovascular importante dependendo do seu histórico familiar e dos hábitos que mantém”, afirma Maria Eugênia.
Por isso, a idade, isoladamente, não deve determinar quando alguém precisa procurar um cardiologista. Segundo a médica, um homem de 30 anos que tenha parentes próximos com histórico de infarto precoce, seja fumante e sedentário, por exemplo, pode ser considerado um paciente de alto risco.
Exames
Segundo a médica, a prevenção passa, inicialmente, por conhecer alguns indicadores básicos de saúde. Pressão arterial, colesterol, glicose e função renal estão entre os parâmetros que precisam ser avaliados. A frequência das consultas e dos exames, entretanto, depende dos fatores de risco individuais.
Pacientes considerados de maior risco cardiovascular, explica Maria Eugênia, podem precisar de acompanhamento especializado duas ou três vezes ao ano. Para aqueles de menor risco, uma avaliação anual pode ser suficiente, sempre de acordo com a orientação médica.
Menos pacote, mais comida de verdade
Na alimentação, a orientação da cardiologista passa menos por dietas restritivas e mais pela volta ao básico. “Um prato saudável pode ter arroz, feijão, verduras, legumes e uma porção moderada de carne magra. Frango sem pele, ovos e peixes também são boas alternativas para variar as fontes de proteína. Sardinha e atum em lata, por exemplo, podem fazer parte da alimentação”, orienta.
Ela ainda reitera que, ao longo do dia, frutas, leite e queijo branco são opções. Já os carboidratos devem ser consumidos com moderação. Até mesmo o pão branco pode ser incluído, preferencialmente acompanhado de alguma fonte de proteína.
À noite, Maria Eugênia recomenda que a refeição seja feita mais cedo e contenha alimentos de mais fácil digestão, com pouca gordura e menor quantidade de carboidratos. Uma sopa de legumes com músculo ou um caldo de feijão com carne moída, quiabo, abobrinha e salada são exemplos citados pela médica.
Na outra ponta estão os alimentos que devem ser consumidos com maior cautela. Ela também chama atenção para o excesso de doces, frituras, gordura vegetal hidrogenada, churrascos e porções de tira-gostos muito grandes. “As carnes processadas, como presunto, salame e salsicha, merecem atenção especial. Além da relação com doenças cardiovasculares, seu consumo está associado ao aumento do risco de alguns tipos de câncer. Quanto menos pacote, melhor”, resume a cardiologista ao falar dos ultraprocessados.
Movimento
A atividade física é outro pilar da prevenção, segundo a médica. A recomendação é de, no mínimo, 150 minutos semanais de atividade física moderada. Caminhada rápida, corrida, bicicleta, musculação e treinos de luta são algumas das opções.
O ideal, segundo Maria Eugênia, é combinar exercícios aeróbicos com atividades de força, como musculação ou Pilates. Mas quem está parado e pretende iniciar uma rotina de exercícios também precisa considerar a própria condição de saúde.
A médica orienta que pessoas com mais de 35 anos devem fazer uma avaliação antes de começar qualquer atividade física. “A recomendação também vale para quem, independentemente da idade, tem histórico familiar de infarto ou morte súbita em pessoas jovens”, afirma.
E existe uma medida preventiva que continua extremamente importante: largar o cigarro. “Parar de fumar diminui drasticamente o risco de doença cardiovascular, em qualquer momento da vida”, afirma a médica.
Alertas
Reconhecer os sinais de um infarto também pode fazer diferença. O sintoma mais tradicional é uma dor ou pressão no peito, geralmente, descrita como um aperto, que pode aumentar de intensidade e aparecer, principalmente, durante esforços ou situações de estresse físico intenso.
Nem todos, entretanto, apresentam esse quadro clássico, conforme a médica. “Idosos, pessoas com diabetes e pacientes com obesidade grave podem ter manifestações diferentes, como falta de ar, náuseas, enjoo ou confusão mental, sem necessariamente apresentar dor no peito”, explica.
Diante de uma suspeita, a orientação é procurar atendimento de emergência imediatamente e acionar o Samu, pelo 192. Enquanto o socorro não chega, a médica orienta que o um comprimido de AAS pode ser mastigado, desde que a pessoa não seja alérgica ao medicamento, não esteja com sangramento e não tenha contraindicação conhecida.
No fim, a mensagem do Dia Mundial do Coração é menos sobre esperar o organismo apresentar sinais e mais sobre cuidar dele antes disso. “Pressão controlada, alimentação equilibrada, atividade física, sono adequado, abandono do cigarro e acompanhamento médico formam um conjunto de atitudes que podem começar em qualquer idade. O coração, afinal, não costuma esperar que a vida fique mais tranquila ou que a pessoa complete 40 anos para cobrar a conta dos hábitos acumulados”, alerta Maria Eugênia Tótola.


